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FABULARIO PORTUGUÊS


he suprema justiça; mas[1] as mays de vezes ha peemdença em este mundo[2], porque nom he nhũa cousa tanto escomdida que sse nom ssaybha em algũu tempo; e no Avangelho diz[3]: Nichill occultum quod non rreueletur[4].

Aquell que faz omiçidio e furtos e outros pecados graues, que nom ha temor de Deus que nos criou e em cujo poder ssomos, nom he christãao[5], nem sse póde chamar, ca nom viue a[6] ley d’homem, mais viue como diaboo do Inferno, que senpre faz e cuyda em mall.


XLVI. [O leão e o rato]

       [Fl. 34-r.][D]iz que foy hũa vez hũu leom que jazia em hũu mato de so hũa fremosa verdura. E os rratos ssobiam per çima d’elle, pera escarneçerem d’elle; e elle tomou hũu e queria-ho matar. E ho rrato lhe rrogou que lhe nom fezesse mall, ca nom seria ssa homrra, dizem[do q]ue [em][7] algũu tempo lhe poderia fazer algũu boo s[erviço][8]. E o leom o leixou, e nom lhe fez mall. [E ho] rrato lhe deu muytas graças.

E d’hi a [pouco] tempo cayo o leom em hũu laço que lhe fezerom os caçadores pera o filhar: e o leom começou de braadar altas vozes. E este rrato, a que ell perdoára a morte, lhe disse:

— Quamtos leões no mundo ssom nom te podem d’aquy liurar! Mays eu, que ssom a mais vill alimalia do mundo, pella graça e bem que me fezeste, te quero liurar.

E loguo ssobio e rroeo ha corda que tijnha no pescoço e liurou--

  1. Postoque neste logar a lettra esteja um pouco apagada, vê-se que é mas, e não mais (e muito menos mays). De facto no ms. alterna mas com mais (mays); cf. fab. XXXIII, moralidade: «mas deuemos amar mays», onde se dá a coincidencia de, como aqui, a conjuncção mas concorrer com o adverbio mays.
  2. As duas primeiras pernas do m estão rotas.
  3. Talvez falte se antes de diz.
  4. No ms. quod e non estão em abreviatura. (Tradução do latim: Não há nada tão oculto que não venha a ser revelado)
  5. No ms. xpãao, abreviatura usual na idade media (xp = χρ = chr)
  6. Aqui a é proposição.
  7. As lettras que ponho entre colchetes, aqui e mais adeante, faltam, porque o ms. está roto. Com relação a em, notarei que não é muito certo que essa palavra esteja no ms. (sob a fórma ), pois ha lá uma sombra que tanto póde ser , como simples mancha; todavia na moralidade lê-se em algũu tempo, — e isto confirma a emenda que faço (o auctor repete muitas vezes na moralidade, como já temos visto, certas palavras da fabula).
  8. O ms. está roto; todavia depois de boo vêem-se restos de uma lettra que póde ser s, e que interpreto por a primeira de serviço, escrito em abreviatura, como noutros logares. A palavra serviço, que se lê na moralidade, confirma esta interpretação. Acha-se a mesma expressão bom serviço, por exemplo, na fab. VIII, moralidade (no ms. alterna boo com bõo e bom.