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BASES CRITICAS DA HIEROLOGIA


mytho vae decahindo segundo as modificações de novos interesses, e apenas vae persistindo o fundo primario que o constituiu, em uma simplicidade não comprehendida, por um affèrro instinctivo dos mais atrazados pela auctoridade indiscutivel do passado. A Superstição é este ramo sêcoo e desfolhado em relação á efflorescencia espontanea dos mytbos; o seu estudo presta-se a uma lucida intelligencia dos mythos, cuja verdade não consiste na interpretação allegorica ou symbolica do seu sentido, mas na determinação dos elementos primarios da sua fórma. É certo que nem todos os mythos são religiosos, ao passo que as Superstições são sempre o vestigio da ruina de uma religião quer na sua parte hierologica, a credulidade nos Espiritos malevolos, quer na sua parte liturgica, os ritos propiciatorios das cerimonias auguraes. Pelo estudo das Superstições se chega á determinação das camadas sociaes juxtapostas pela unidade civil, mas profundamente separadas entre si por inaccessiveis distancias de capacidade mental; dentro de um mesmo povo, em um elevado gráo de civilisação, é facil descer até á inconsciencia primitiva, recompôr as concepções das sociedades rudimentares diante da natureza e dos factos do espirito, e reconhecer até á evidencia que as forças de conservação servem de apoio ao maior numero, e que é sobre ellas que assenta o poder temporal e o espiritual todas as vezes que exploram o arbitrio e a mentira. As Superstições na sua persistencia e no seu caracter temeroso ou maligno são um documento psychologico; nas profundas raizes e analogias de povo a povo, e conservação secreta entre as camadas sociaes degradadas ou atrazadas, são um documento proto-bistorico pelo qual se pode recompôr o estado social sobre que se desenvolveram as civilisações progressivas. É preciso distinguir o criterio psyclologico e o ethnologico.