Página:Obras de Manoel Antonio Alvares de Azevedo v2.djvu/241

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa


sabe se naquele pântano não encontrarias talvez a chave de ouro dos prazeres que deliram?

Macário: Quem sabe! Talvez.

Satan: É tarde. Agora é uma caveira a face que beijaste -uma caveira sem lábios, sem olhos e sem cabelos. O seio se desfez. A vulva onde a sede imunda do soldado se enfurnava-como um cão se sacia de lodo-foi consumida na terra. Tudo isso é comum. É uma idéia velha não? E quem sabe se sobre aquele cadáver não correram lágrimas de alguma esperança que se desvaneceu? se com ela não se enterrou teu futuro de amor? Não gozaste aquela mulher?

Macário: Não.

Satan: Se ali ficasse mais alguma hora, talvez ela te morresse nos braços. Aquela agonia, o beijo daquela moribunda talvez regenerasse. Da morte nasce muitas vezes a vida. Dizem que se a rabeca de Paganini dava sons tão humanos, tão melodiosos, é que ele fizera passar a alma de sua mãe, de sua velha mãe moribunda, pelas cordas e pela caverna de seu instrumento. Sentes frio, que te embuges assim no teu capote?

Macário: Satan, fecha aquela janela. O ar da noite me faz mal. O