Página:Obras de Manoel Antonio Alvares de Azevedo v2.djvu/269

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rouxinol e o uivar da fera noturna, o canto de amor da virgem na noite do noivado, e o canto de morte que na casa junta arqueja na garganta de um moribundo. Não maldigas a voz rouca do corvo-ele canta na impureza um poema desconhecido, poema de sangue e dores peregrinantes como a do bengali é de amor e ventura! Fora loucura pedir vibrações a uma harpa sem cordas, beijos à donzela que morreu-fogo a uma lâmpada que se apaga. Não peças esperanças ao homem que descrê e desespera.

Penseroso: Macário! e ele tão velho, teve tantos cadáveres que apertar nos braços nas horas de despedida, que o seu sangue se gelasse, e seus nervos que não dormem precisassem do ceticismo, como Paganini do ópio para adormecer? Por que foi ele banhar sua fronte juvenil na vertigem dos gotos amaldiçoados? Com as mãos virgens, porque vibrou o alaúde lascivo esquecido num canto do lupanar? É um livro imoral: por que esse lupanar? É um livro imoral: por que esse moço entregou-se delirante a essa obra noturna de envenenamento?

Não te rias, Macário-pobre daquele que não tem esperanças; porém maldito aquele que vai soprar as cinzas de sua esterilidade sobre a cabeça fecunda daquele que ainda era puro! O coração é um Oceano que o bafejar de um louco pode turvar, mas a quem só o hálito de Deus aplaca as tormentas.

Esperanças! e esse descrido não palpita de entusiasmo