Página:Obras de Manoel Antonio Alvares de Azevedo v2.djvu/272

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os cavalos da Arábia, o ópio, o hatchiz, o café de Moka, e o latakiá-são coisas soberbas!

A poesia morre-deixá-la que cante seu adeus de moribunda-Não escutes essa turba embrutecida no plagiar e na cópia. Não sabem o que dizem esses homens que para apaixonar-se pelo canto esperam que o hosana da glória tenha saudado o cantor. São estéreis em si como a parasita. Músicos-nunca serão Beethoven nem Mozart. Escritores-todas as suas garatujas não valerão um terceto do Dante. Pintores-nunca farão viver na tela uma carnação de Rubens ou erguer-se no fresco um fantasma de Miguel Angelo. É a miséria das misérias. Como uma esposa árida, tressuam e esforçam-se debalde para conceber. Todos os dias acordam de um sonho mentiroso em que creram sentir o estremecer do feto nas entranhas reanimadas.

Falam nos gemidos da noite no sertão, nas tradições das raças perdidas da floresta, nas torrentes das serranias, como se lá tivessem dormido ao menos uma noite, como se acordassem procurando túmulos, e perguntando como Hamlet no cemitério a cada caveira do deserto o seu passado.

Mentidos! Tudo isso lhes veio à mente lendo as páginas de algum viajante que esqueceu-se talvez de contar que nos mangues e nas águas do Amazonas e do Orenoco há mais mosquitos e sezões do que inspiração que na floresta há insetos repulsivos, répteis imundos; que a pele furta-cor do tigre não tem o perfume das flores -