Página:Obras de Manoel Antonio Alvares de Azevedo v2.djvu/320

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vaga que varria nossas tábuas descosidas arrastava um homem — mas cada vaga que me rugia aos pés parecia respeitar-me. Era um Oceano como aquele de fogo onde caíram os anjos perdidos de Milton — o cego: quando eles passavam cortando-as a nado, as águas do pântano de lava se apertavam: a morte era para os filhos de Deus — não para o bastardo do mal!

Toda aquela noite passei-a com a mulher do comandante nos braços. Era um himeneu terrível aquele que se consumava entre um descrido e uma mulher pálida que enlouquecia: o tálamo era o Oceano, a escuma das vagas era a seda que nos a alcatifava o leito. Em meio daquele concerto de uivos que nos ia ao pé, os gemidos nos sufocavam: e nós rolávamos abraçados — atados a um cabo da jangada — por sobre as tábuas.

Quando a aurora veto, restávamos cinco: era, a mulher do comandante, ele e dois marinheiros — ...

Alguns dias comemos umas bolachas repassadas da salsugem da água do mar. Depois tudo o que houve de mais horrível se passou .

— Por que empalideces, Solfieri? a vida é assim. Tu o saber como eu o sei. O que é o homem? é a escuma que ferve hoje na torrente e amanhã desmaia: alguma coisa de louco e movediço como a vaga, de fatal como o sepulcro! O que é a existência? Na mocidade é o caleidoscópio das ilusões:: vive-se então da seiva do futuro. Depois envelhecemos quando chegamos aos trinta anos é o suor das agonias nos grisalhou os cabelos antes do