Página:Obras de Manoel Antonio Alvares de Azevedo v2.djvu/321

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tempo, e murcharam como nossas faces as nossas esperanças, oscilamos entre o passado visionário, e este amanhã do velho, gelado e ermo — despido como um cadáver que se banha antes de dar a sepultura! Miséria! loucura!

— Muito bem! miséria e loucura! — interrompeu uma voz.

O homem que falara era um velho. A fronte se lhe descalvara, e longas e fundas rugas a sulcavam — eram ondas que o vento da velhice lhe cavava no mar da vida. Sob espessas sobrancelhas grisalhas lampejavam-lhe os olhos pardos e um espesso bigode lhe cobria parte dos lábios. Trazia um gibão negro e roto, e um manto desbotado, da mesma cor lhe caia dos ombros.

— Quem és, velho? — perguntou o narrador.

— Passava lá fora:: a chuva caia a cântaros: a tempestade era medonha: entrei. Boa-noite, senhores! se houver mais uma taça na vossa mesa, enchei-a ate as bordas e beberei convosco.

— Quem és?

— Quem eu sou? na verdade fora difícil dizê-lo: corri muito mundo, a cada instante mudando de nome e de vida. — Fui poeta — e como poeta cantei... Fui soldado, e banhei minha fronte juvenil nos últimos raios de sol da águia de Waterloo. — Apertei ao fogo da batalha a mão do homem do século. Bebi numa taverna com Bocage — o português, ajoelhei-me na Itália sobre o túmulo de Dante — e fui à Grécia para sonhar como Byron naquele túmulo