Página:Obras de Manoel Antonio Alvares de Azevedo v2.djvu/350

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A madrugada ai vinha com seus vapores, seus rosais borrifados de orvalho, suas nuvens aveludadas, e as águas salpicadas de ouro e vermelhidão. A natureza corava ao primeiro beijo do sol, como branca donzela ao primeiro beijo do noivo: não como amante afanada de noite volutuosa como a pintou o paganismo; antes como virgem acordada do sono infantil, meio ajoelhada ante Deus; que ora e murmura suas orações balsâmicas — ao céu que se azula — à terra que cintila — às águas que se douram. Essa madrugada baixava a terra como o bafo de Deus: e entre aquela luz e aquele ar fresco a duquesa dormia — pálida como os sonos daquelas criaturas místicas das iluminuras da Idade Media — bela como a Vênus dormida do Ticiano, e volutuosa como uma das amásias do Veroneso.

Beijei-a: eu sentia a vida que se me evaporava nos seus lábios. Ela sobressaltou-se — entreabriu os olhos; mas o peso do sono ainda a acabrunhava, e as pálpebras descoradas se fecharam...

A carruagem corria sempre.



O sol estava a prumo no céu — era meio-dia: o calor abafava: pela fronte, pelas faces, pelo colo da duquesa rolavam gotas de suor como aljôfares de um colar roto... Paramos numa estalagem: lancei-lhe sobre a face um véu, tomei-a nos meus braços, e levei-a a um aposento.

Ela devia ser muito bela assim! os criados paravam