Página:Obras de Manoel Antonio Alvares de Azevedo v2.djvu/358

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vida? Põe a mão no teu coração — bate e bate com forca, como o feto nas entranhas de sua mãe. Há ai dentro muita vida ainda: muito amor por amor, muito fogo por viver! Oh! se tu quisesses amar-me!

Ela escondeu a cabeça nas mãos e soluçou.

— E impossível: eu não posso amar-vos!

Eu disse-lhe:

— Eleonora, ouve-me: deixo-te só; velarei contudo sobre ti daquela porta. Resolve-te: seja uma decisão firme sim, mas pensada. Lembra-te que hoje não poderás voltar ao mundo: o duque Maffio seria o primeiro que fugiria de ti: a torpeza do adultério senti-la-ia ele nas tuas faces: creria roçar na tua boca a umidade de um beijo de estranho. E ele te amaldiçoaria! Vê: além a maldição e o escárnio: a irrisão das outras mulheres, a zombaria vingativa daqueles que te amaram e que não amaste. Quando entrares, dir-se-á: ei-la! arrependeu-se! o marido — pobre dele! perdoou-a...As mães te esconderão suas filhas — as esposas honestas terão pejo de tocar-te...E aqui, Eleonora, aqui terás meu peito e meu amor — uma vida só para ti: um homem que só pensara em ti e sonhara sempre contigo; um homem cujo mundo serás tu, serão teus risos, teus olhares, teus amores: que se esquecera de ontem e de amanhã para fazer como um Deus de ti a sua Eternidade. Pensa, Eleonora! se quisesses, partiríamos hoje: uma vida de venturas nos espera. Sou muito rico, bastante para adornar-te como uma rainha. Correremos a Europa, iremos ver a Franca