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Página:Obras de Manoel Antonio Alvares de Azevedo v2.djvu/99

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Assaz tardei, meu Deos! ha muito que balanccio á bocca do sorvedouro sem fundo da eternidade! Porque tremi? tremi! Foi pavor que te deteve, Aldo?... Não, o dever. E comtudo, agora ainda porque oravas áquella donzella porque te conservasse a .ida, dando-te a sna? Nada devias a ningnem, e querias viver! cobarde criança ! pedias o amor com lagrimas ! Pedias- lo a uma camponeza imbecil, quando é n’um mundo desco¬ nhecido que deves busca-lo! Quem te sustem? a duvida? e não mais vale a duvida que o desespero? Lá emcima a incerteza, aqui a realidade. A escolha póde ser duvidosa? Vai pois, Aldo! desce a essas vagas profundezas, ou remonta a esses espaços inapprehensiveis. Deos te proteja, se lhe vales a pena; dè-te ao nada, se tua alma é um sopro do nada !... Adeos, leito onde tão mal dormi! Adeos, mesa dura e fria onde conheci versos ardentes! adeos, fronte livida de minha mãi, onde tantas vezes investiguei com ancia os estragos do soffrimento e as ultimas lutas da vida prestes a apagar-se! Adeos, esperanças de gloria! adeos, esperanças de amor que me mentieis! rebento as malhas da rede onde tao longo me foi o captiveiro ridiculo! Vou alevantar-me a vossos olhos, quebrar um jugo que me envermelhece de pejo... Adeos!...


Dizei-me, vós que vistes passar ante vós n’alguma noite dê febre aquellas visões de Agandecca na barca magica, e a fronte pallida e bella do mancebo sobre o peito da rainha —e aquelle afastar de uma gondola pe¬ las aguas — e aquella solidão de um cadaver insepulto no chão do quarto deserto ; vós que talvez então lem¬ brastes as phantasias de Shakspeare no conto da «Noite de inverno» e no sonho da «Noite de Verão», aquelles risos de Titania a fada e a voz de Oberon e as melodias