Que os fariaõ naſcer? De que me accuſa
A tua impaciente auſteridade?
Eledia. Nao ſou eu quem te accuſo; o mundo todo
Te lança em roſto, Oſmîa, eſta fraqueza,
Com que cedido tens aos vãos projectos
De quem dobradas vezes te cativa.
Oſmîa. S'outra couſa naõ tens de que m'arguas,
Poderas eſcuſar-me de eſtranhar-te
Eſſe indiſcreto zêlo, a que ſincéra
Já dei ſatisfaçaõ.
Eledia.Naõ déſte Oſmîa.
Como fabula corre entre os Romanos
De teu funeſto amor a vergonhoſa
Nunca atégora imaginada hiſtoria.
Oſmîa. Ah! treme Eledia, treme da ferida
Que no intimo d'alma vens cravar-me.
Eledia. Ameáças-me tu?
Oſmîa. Se te ameaço,
Se me dôo naõ ſei: ſei que m' accendes
Hum furor dentro n'alma deſuſado.
E quaes, Eledia, ſaõ, quaes ſaõ as provas
Da fraqueza que argues? Quem ſe atréve
A culpar-me que indique acçaõ, ou geito,
Com que os ditos infames authorize?
E tu (injuſta Eledia!) tu que ſabes
O que eu ſou, o que eu ſoffro; ſem piedade;
Sem pejo, ſem horror, e ſem reſpeito
Vens tu meſma cobrir-me d'ignominia?
Eledia. [1] Ah! fim: de que és Princeza me recordo.
Mas ſe com a Romana mal s'ajuſta
A ſevéra virtude Luſitana,
Vaſſalla, ou livre, já de ti m' affaſto.
Treme em tanto (infeliz!) do mal acérbo,
Que ſobre ti já vejo eſtar pendente.
- ↑ Com ironia picante.