MInhas Leytoras: Muytos annos ha, que vejo correr hum papel impreciſo, que ſe intitula MALICIA DAS MULHERES, ſem que até o preſente houveſse huma, que fe diſpozeſse a contradize-lo, com huma juſta Apologia da noſsa notoria innocencia. Pareceo-me inequidade, que ſe foſsem multiplicando, à noſsa revelia, contra nòs, tantas ſentenças, quantas ſaõ as approvações q' aquelle famoſo Libelo acha entre as pessoas do povo, e por isso agora me reſolvo a contraria-lo,e reconvi-lo. Supponho, á eſte arbitrio vos ſerà taõ grato, quanto aquelle papel vos ſrà molleſto; e que naõ deixareis de convir, em que eu, como peſsoa taõ conjuncta, e igualmente intereſsada, me arrogue o officio de voſsa procuradora. Tambem ſupponho, que os homens (ainda falando com aquelles, que devemos reſpeitar por ſenhores, por Doutos, e por Juizes, a quem naõ comprehendemos, porque ſó com os do povo galhofeamos) naõ eſtranharam que uſemos daquelle direito natural, que taõ licita faz a propria defeza, quando ſe guarda a moderaçaõ, que a faz inculpada, porque niſto cuidei tanto, que ſe os firo, he ſó com a meſma acção com que nos defendo. A jocoſidade parece, que naõ excede os limites até onde a licencea S.Thomàs 2. 2. quæſt. 108. art. 4. nem chega aos daquella,que ſe contèm no papel,que impugnamos,cujos motivos me perſuadiraõ a dar eſte à luz, vendo, que poderiaó ſer baſtantes para ninguem o eſtranhar,e para muyta gente o applaudir, ſervindo para diverſaõ do povo, ſem ſe oppor à obſervancia do honeſto. Eſtimarei, que todos ſejaõ do meſmo parecer, para q' muitos tenhaõ, com que ſe divertir. VALETE.
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