Nada, do que nos diſſeſtes
tem a mais leve entidade.
He certo, que o eſcreveftes
por encobrir a maldade,
com que jà todos naſceſtes.
De tudo, por conſequencia
reſulta a voſſa maldade,
e a toda a noſſa innocencia.
Naõ negarei tal verdade,
ſe tiverdes conſciencia.
Que em vòs a malicia humana
ſó eſteja depoſitada,
ſe vê no muito que engana
o home a mulher; coitada,
que diſto graõ mal lhe emana.
Tudo o mais, que deduzis
negamos; nem terá prova;
porque o que nos arguiz
he falſo; e fizeſtes cova,
em que cabeis, e cahis.
E aſſim faço aos meus leitores
Juizes de tal ſentença,
eſperando, que os Authores
nos paguem a reconvença,
etratem de ſer melhores.
Filha tendes eſcutado
quanto deixo convencido
eſse taõ tirano eſtado o
de viver com hum marido
cruel, e mal inclinado.
Naõ vos fieis de propoſtas,
nem das ſuas apparencias.
Por naō darmos màs repoſtas
nos propoem mil conveniencias
depois quebraõ-nos as coſtas.
Sempre foy o mais perfeito
o eſtado do celibato.
Eu nunca a outro achei geito.
Procedî bem no meu trato;
e fempre vivi com reſpeito.
Naõ ſe vos dê de ninguem.
Dizei-lhe, que naõ quereis.
Hide embora; e de quem
der conſelhos menos fieis
Deos vos livre, e fade bem.
Página:Paula da Graça - Bondade das mulheres vindicada, e malicia dos homens manifesta (1743).pdf/8
Aparência
LISBOA,
Na Officina de Pedro Ferreira, Impreſſor da Auguſtſſima Rainha N. S. Anno de 1743.
Com todas as licenças neceſſarias.
Neſta meſma Officina ao arco de JBSUS, junto de S. Nicolao, ſe acharà eſte papel, e outro intitulado Advertencias curioſas para os Eſtudioſos, e outros mais.