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Fernão Mendez Pinto. 6

cudindolhe então as outras duas, que eſtauão mais afaſtadas hum pouco atras, lhe lançaraõ dentro quarenta Turcos, com o qual ſocorro os noſſos ficaraõ de todo rendidos, & de tal maneyra foraõ tratados, que do numero dos cinquenta & quatro que erão por todos, ſós onze ficaraõ com vida, dos quais ao outro dia falleceraõ dous, que os Turcos fizeraõ em quartos, & para triũfo os leuarão pindurados nas pontas das vergas ate a cidade de Mocaa, cujo Capitão era ſogro deſte Soleymão Dragut q̃ nos tomara; & ao tempo que aly chegamos, eſtaua ja na praya cõ todo o pouo para receber o genro, & darlhe os parabẽs da vic‍toria, & tinha conſigo hum Caciz ſeu Moulana que elles tinhão por ſanto, por auer poucos dias que viera da caſa do ſeu Mafoma, o qual em hum carro toldado de ſeda com grandes bençoẽs & celàs prouocaua os ouuintes a darem muytos louuores a Mafamede pela vic‍ttoria que dera contra nos aquelle Turco. Aly deſembarcamos os noue que ficamos viuos, todos preſos em hũa corrente, & cõ noſco tambẽ o Biſpo Abexim, o qual hia tão ferido que ao outro dia falleceo com moſtras de muyto bom Chriſtão, o q̃ a todos nos animou, & nos conſolou muyto. A gente do pouo vendonos vir aſsi preſos, & conhecendo q̃ eramos os Chriſtaõs catiuos, foraõ tãtas as bofetadas q̃ nos deraõ q̃ em verdade afirmo q̃ nunca cuidey q̃ eſcapaſſemos daly cõ vida, porq auião, pelo q o Caciz dizia, que ganhauão indulgencia plenaria em nos vituperarem & maltratarem. Deſta maneyra fomos leuados por toda a cidade a modo de triunfo, com grandes gritas & tangeres, onde ate as molheres encerradas, & os moços & mininos nos lançauão das genellas muytas panellas de outina por vituperio & deſprezo do nome Chriſtão. E ja quaſi Sol poſto nos meteraõ em hũa mazmorra que eſtaua debaixo do chaõ, na qual eſtiuemos dezaſſete dias cõ aſſaz de deſauentura & de trabalho, ſem em todos elles nos darem mais que hũa pouca de farinha de ceuada para todo o dia, & algũas vezes graõs crùs molhados em agoa ſem mais outra couſa nenhũa.

CAP. VI.
De hum motim que ouue nesta cidade: & da causa; & do ſucceſſo delle, & porque via eu fuy daqui leuado pera Ormuz.

C

Omo os mais dos miſeraueis de nos vinhamos maltratados das feridas, que eraõ grandes & perigoſas, ajuntandoſe a iſto a deshumanidade cõ que naquella triſte priſaõ fomos tratados, quando veyo ao outro dia pela menham, dous do conto dos noue amanheceraõ mortos , hum por nome Nuno Delgado, & outro Andre Borges, ambos de boa geração & homẽs esforçados, porque como eſtes ambos vinhaõ feri-
dos