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Fernam Mendez Pinto. 11

de ontem morreraõ, ſerà couſa impoſsiuel, porque afirmadamente te juro por vida ſua, & por eſta linha de Bramene que profeſſey de pequeno, que tão afrontada ficou quãdo ſoube do teu deſaſtre, & deſauenturado ſucceſſo, como ſe o dia de oje lhe fizeraõ comer carne de vaca na porta principal do pagode onde ſeu pay jaz enterrado, & por aquy ſenhor julgaras quanta parte tem no teu nojo, mas ja que no feito não pode auer o remedio que el.la deſeja, te pede & roga, que de nouo lhe confirmes as pazes que os Gouernadores paſſados lhe concederão, pois trazes poder do ſenhor Viſorrey para iſſo, & que ella te fica, & te dà ſua palaura de mandar logo queimar a Galè, & aos Turcos que ſe vão ſora da ſua terra, porque para o mais, como tu ſabes, não he ella poderoſa , & iſto logo em termo de ſós quatro dias, que para iſſo te pede de eſpaço. O Capitão mór entendendo quão importante couſa eſta era, lhe aceitou a promeſſa, & lhe concedeo de nouo as pazes, as quais juradas aly logo & confirmadas de ambas as partes com as cerimonias coſtumadas entre aquelles Gentios, a Raynha buſcou todos os meyos poſsiueis para cumprir ſua palaura, mas por ſe não poder eſperar o termo dos qiiatro dias que a Raynha pedira, pelo perigo dos muytos feridos que auia na armada, o Capitão mór ſe partio logo neſte meſmo dia à tarde, & deixou ahy na terra hum Iorge Nogueyra, peraque de tudo o que neſte caſo mais ſocedeſſe, trouxeſſe recado ao Viſorrey por lho pedir aſsi a Raynha.

CAP. XII.
Do que paſſou neste tempo atê Pero de Faria chegar a Malaca.

O

Capiraõ mór Gonçallo Vaz Coutinho chegou ao outro dia com a ſua armada a Goa, onde foy bem recebido do Viſorrey, & lhe deu conta de tudo o que lhe ſocedera na viagem, & do que deixara concertado com a Raynha de Onor, aſsi de queimar a Galè, como de lançar os Turcos fora do reyno, de que o Viſorrey então ſe ouue por ſatisfeito. Paſſados vinte & tres dias depois q̃ chegamos a eſta cidade, em q̃ eu acabey de conualecer de duas feridas que trouxe da briga da tranqueyra, vendome ſem nenhum remedio de vida, me fuy, por conq̃elho de hum padre meu amigo, offerecer a hum fidalgo honrado por nome Pero de Faria, que então eſtaua prouido de Capitaõ de Malaca, & que neſte tempo daua meſa a todo o homem que a queria aceitar delle, o qual aceitou o meu offerecimento, & me prometeo que ao diante na ſua capitania, me faria toda a amizade que pudeſſe, pois o eu queria acompanhar naquella jornada em que hia co Viſorrey. Neſte tempo ſe fazia preſtes o Viſorrey
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