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Fernão Mendez Pinto. 21

Ceilão, onde o lançaraõ em terra no porto de Gàle, & a carauella & fuſtas leuaraõ ao Gouernador dom Ioaõ de Caſtro, que lhes deu perdão do q̃ tinhão feito, por irem d’armada com elle a Diu a ſocorro de dõ Ioaõ Maſcarenhas, que então eſtaua cercado dos Capitaẽs del Rey de Cambaya, & de então pera cà ſe não tratou mais deſte descobrimento, que tão proueitoſo parece que ſerà para o bẽ commum deſtes reynos, ſe noſſo Senhor foſſe ſeruido que eſta ilha ſe vieſſe a deſcobrir.

Cap. XXI.
Como chegou â fortaleza de Malaca hum Embaixador del Rey de Aarû, & do que paſſou nella.

A

Vendo ſòs vinte & ſeis dias que eu era chegado a Malaca com eſta repoſta do Rey dos Batas de que tenho tratado, ſendo ainda neſte tempo dõ Eſteuão da Gama Capitão da ſortaleza, chegou a ella hum Embaixador do Rey de Aarù, que he neſta ilha Çamatra, & o negocio a que vinha, era pedir ſocorro de gente, & algũas municoẽs de pilouros & poluora, pera ſe deſender de hũa groſſa frota q̃ o Rey do Achem mandaua ſobre elle para lhe tomar o reyno, a fim de ficar mais noſſo vezinho, & dahy cõtinuar com ſuas armadas ſobre Malaca, por lhe ſerem chegados nouamente trezentos Turcos do eſtreyto de Meca. O que viſto por Pero de Faria, & quão importante negocio eſte era ao ſeruiço del Rey,& a ſegurança daquella fortaleza, deu cõta diſſo a dom Eſteuão, que ainda deſpois diſto foy Capitão mes & meyo, o qual ſe lhe eſcuſou de tratar deſte ſocorro, com dizer que ja acabaua o ſeu tempo, & que a elle pertencia iſſo mais, pois ficaua na terra, & auia de paſſar por eſſe trabalho de que ſe arreceaua. A que Pero de Faria reſpondeo, que lhe deſſe elle comiſſaõ para mandar nos almazẽs, & que logo proueria no ſocorro que entẽdia ſer neceſſario. E por abreuiar rezoẽs não contarey por extenſo o que ſobre iſto ambos paſſaraõ, ſomente direy que o Embaixador foy excluydo de ambos, de hum com dizer que ja acabaua, & do outro que ainda não entraua. E aſsi ſe partio ſem leuar couſa nenhũa do que vinha pedir. E magoado deſta tamanha ſem rezão que lhe parecia que com ſeu Rey ſe vſara, hũa menham querendoſe embarcar, eſtando eſtes Capitaẽs ambos à porta da fortaleza, lhes diſſe publicamente quaſi chorando: o Deos q̃ viue reynando por poderio & mageſtade ſuprema no mais alto Ceo de todos os Ceos tomo, com ſuſpiros arrancados do interior da minha alma, por Iuiz neſte caſo, da rezão & juſtiça que tenho em fazer a voſſas merces ambos ſenhores Capitaẽs eſte requerimento em nome do meu Rey, vaſſallo leal por menagem jurada, que ſeus antepaſſados fizerão
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