Que um concerto de supplicas, de mágoa,
De martyrios secrétos,
Vae os olhos tornando rasos d’agoa
E turvando os objectos...
Que um soluço cruel, desesperado
Na garganta rebenta...
Emquanto o Esquecimento allucinado
Móve a sombra nevoenta!
Ó rio rôxo e triste, ó rio morto,
Ó rio rôxo, amargo...
Rio de vãs melancolias de Horto
Cahidas do céo largo!
Rio do esquecimento tenebroso,
Amargamente frio,
Amargamente sepulchral, lutuoso,
Amargamente rio!
Quanta dor nessas ondas que tu lévas,
Nessas ondas que arrastas,
Quanto supplicio nessas tuas trévas,
Quantas lagrimas castas!
Ó meu verso, ó meu verso, ó meu orgulho,
Meu tormento e meu vinho,
Minha sagrada embriaguez e arrulho
De aves formando ninho.
Verso que me acompanhas no Perigo
Como lança preclara,
Que este peito defende do inimigo
Por estrada tão rara!
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Aparência
PHARÓES
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