Página:Poesias eroticas, burlescas e satyricas.djvu/97

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olinda a alzira


Da terna virgem do innocente peito?
Reclamas a candura, de que usava
Antes de me illustrar de Amor o facho?
Ousas mesmo increpar-me de artificio,
Porque eu não soube delicada teia
Urdir aos olhos teus, porque eu não soube
As effusões de amor envolver n′ella,
E, qual me envias, dar-te digna offerta?
Basta, tu mandas; vou obedecer-te.
Tenho ante os olhos instruccções sobejas
Para pintar o quadro dos deleites
Que de dois entes n′um absortos brotam.
Tu me dás os pinceis, o molde, as côres,
E no meu coração, prezada amiga,
Fecunda o goso meigos sentimentos,
Que só acabarão, se amor acaba!...

Que chimericos céos fórma a impostura!...
Aonde móres delicias se promettem
Que as de um amante, d′outro ao lado unido?
Eu sonhava illusões, antes que fosse
Nos mysterios de amor iniciada.
Errava de um em outro labyrintho,
D′onde os conselhos teus, amada Alzira,
E amor, dando-me o fio d′Ariadna
Me fizeram sair: deixam-me forças
Para abafar o monstro, que meus dias
Tinha de funestar com vãos temores,
Flhos do erro vil, da fraude abortos.

Qual vaguéa nas trevas sem acordo
Perdido o tino, afflicto o caminhante,