Página:Portugaliae Monumenta Historica - Scriptores, v. 1 fasc. 2.pdf/10

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acharem seguidamente no mesmo codice. Elles desappareceram depois de Lousada os transcrever[1], e a copia deste foi d'onde Affonso de Torres extrahiu a que depois veio a servir de texto para se imprimirem nas Provas da Historia Genealogica.»

Contra a genuinidade dos dous nobiliarios occorre desde logo uma ponderação. É notavel que de todos os escriptores do século XVI que tractaram em especial do assumpto de linhagens, ou em geral de materias historicas, nenhum cite os dous monumentos contidos no Livro Velho e que delles nenhuma noticia houvesse na Torre do Tombo antes de Lousada os transcrever. De feito, n'uns apontamentos de Fernão de Pina que adiante havemos de citar, e que evidentemente foram colligidos na Torre na primeira metade do século XVI, sendo frequentissimos os excerptos do N.o IV, não apparece a menor allusão aos N.os I e II.

O Nobiliario de Damião de Goes, que hoje se conserva no Archivo Nacional, é apenas uma copia do seculo XVII, que alli mandou depositar com auctorisação superior o Guarda-mór Gregorio Mascarenhas Homem em logar do original que desapparecera. Este original parece ser um volume que existe na Bibliotheca Real da Ajuda, com o titulo Livro de Linhagens de Portugal por Damião de Goes, contendo uma especie de borrão daquelle nobiliario em letra muito mais antiga, e de duas ou três mãos diversas. Tanto neste codice como na copia do Archivo cita-se algumas vezes o nobiliario attribuido vulgarmente ao Conde de Barcellos sem que ahi appareça a menor allusão a nenhum dos nobiliarios N.os I e II. Se no tempo de Damião de Goes, um dos Guarda-móres da Torre do Tombo que melhor conheceram aquelle archivo, alli existisse o chamado Livro Velho, é altamente improvavel que elle desconhecesse a sua existencia.

Na verdade, o mesmo Damião de Goes na Chronica de D. Manuel[2], debatendo a origem e filiação da rainha D. Mafalda, mulher de Affonso I, refere-se aos que compozeram os Livros das Linhagens de Hespanha, assi o velho como o novo. Houve quem visse nisto uma allusão aos nobiliarios I e II e nós proprio adoptámos irreflexivamente essa idéa[3]. Para a rejeitar basta attender a que nem n'um nem n'outro se tracta da rainha D. Mafalda.

No codice que parece ser o original do nobiliario de Goes, e no fim do qual se encontra em fórma de dissertação toda a materia do capitulo acima citado da Chronica de D. Manuel, lê-se tambem a f. 242 v. a seguinte nota : «Posto que algũas destas linagens, que se aguora seguem adiante, fiquem escritas já atrás, tornarãose agora a escreuer porque differem em muitas cousas, accrescentando nesta segunda tradução muitas cousas de que na primeira se não fazia menção: e isto consta do outro liuro do Tombo delrei, que fala das linhagens, feito depois do liuro de dom Pedro; mas não he muito apurado, nem tanto como este que atrás fica.» Neste mesmo codice, tractando da origem dos Mellos a f. 168, diz-se: «E deste Martim Affonso de Mello fala o Livro Antiguo das linagens no titolo xxx de D. Gomees Mendes, e no titolo lv dos da Cunha f. 167 porque não trata da genologia antigua dos Melos, antes de se elles chamarem de Mello, como se contem no livro das linagens do conde D. Pedro, filho delrei D. Dinis de Portugual.»

Estas duas passagens combinadas com o capitulo 71 da 4.ª parte da Chronica de D. Manuel provam claramente que no tempo de Damião de Goes existiam dous livros de Linhagens escriptos em epochas anteriores, a um dos quaes, com exclusão do outro, se chamava o Livro do Conde D. Pedro. Mas que o Livro Antiguo não era o que hoje chamamos o Livro Velho (N.os I e II) é o que com evidencia resulta igualmente dessas passagens, porque nem este se póde reputar como feito depois do livro de D. Pedro e menos apurado, nem nelle se encontra a divisão de titulos, em que da segunda passagem se conhece ter sido dividido o Livro Antigo ahi citado.

Apesar, pois, de escrever especialmente sobre linhagens e sendo Guarda-mór da Torre, Damião de Goes desconheceu a existencia do chamado Livro Velho, cousa altamente improvavel

  1. Esta opinião, que adoptámos segundo a torrente dos escriptores, é inexacta como adiante veremos.
  2. P. IV, c. 71
  3. Memoria sobre a Orig. dos Liv. de Linh. l. cit.