Página:Portugaliae Monumenta Historica - Scriptores, v. 1 fasc. 2.pdf/7

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Inserindo neste logar os Livros de Linhagens, ou catalogos historicos das famílias nobres, redigidos durante a idade media, começaremos por extrahir de um trabalho anterior nosso [1] relativo principalmente ao nobiliário do Conde D. Pedro o que dissemos acerca da natureza destes monumentos, dos quaes a Historia ainda póde tirar grande vantagem, apesar de haverem chegado até nós mutilados, alterados e talvez intencionalmente viciados, aproveitando-se com cautela as noticias que encerram, e confrontando-as com os resultados das outras fontes historicas.

«O Livro das Linhagens, chamado do Conde D. Pedro, é o livro, não de um homem, mas sim de um povo e de uma epocha: é uma especie de registo aristocratico, cuja origem se vae perder nas trevas que cercam o berço da monarchia. Até o ultimo quartel do seculo XV, ou principios do XVI, tempo em que parece ser escripto o codice que hoje se considera como original, e que existe no Archivo do Reino, cada geração ahi foi lançar um memento da sua passagem na terra; cada uma dellas o alterou segundo as opiniões que vogavam, e o accrescentou com os acontecimentos mais notaveis recentemente ocorridos, e com as successões das familias, cujas tradições historicas e cujos direitos este livro era destinado a perpetuar. No estado, pois, em que a idade media no-lo herdou, elle continha, não só as linhagens das nobres familias, mas tambem o espirito, a indole, dessa larga serie de annos. A singeleza, a credulidade, os costumes de então surgem ahi ás vezes inesperadamente no meio do arido catalogo das gerações, que é por assim dizer o seu pensamento radical, a sua essencia, e foi o seu primeiro destino. Nas suas paginas sente-se viver a idade media: ouve-se a anecdota cortesan, de amor, de vingança, ou de dissolução, como a contavam escudeiros e pagens por salas d'armas, e as lendas como corriam de boca em boca, narradas pela velha cuvilheira juncto do lar no inverno. Assistimos, por meio delle, ás façanhas dos cavalleiros em desaggravo da propria honra, aos feitos de lealdade, as covardias dos fracos, ás insolências dos fortes, e, emfim, a grande parte da vida intima do solar do infanção, do rico-homem e do paço real, que as chronicas raro nos revelam, e que a historia, como o século XVI a reformou e puliu, achou indigna de occupar os seus periodos brilhantes moldados pelos de Sallustio e de Livio.»

«O Livro das Linhagens não é mais do Conde D. Pedro que de dez ou vinte sujeitos diversos, de cujos nomes se duvida, e que em varias epochas o emendaram, accrescentaram, ou diminuiram, substituindo muitas vezes verdades a erros, erros a verdades, ou erros a erros, mas que nisso mesmo deixaram vestigios das idéas da sua epocha, tornando este livro um monumento, debaixo de certas relações, cada vez mais importante.»

  1. Memoria sobre a origem provavel dos Livros de Linhagens por A. Herculano. Memor. da Acad.(2.ª Classe) T.I, P.1.ª p. 35.