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N.° 12
Officio do Conde de Tarouca e de D. Luiz da Cunha, Plenipotenciarios de Portugal no Congresso de Utrecht, sobre as difficuldades que surgiam para que Portugal conservasse as Praças tomadas na fronteira de Hespanha, etc.

Recebemos os despachos de v. m.es de oito de abril, que trazia Pedro de Montigni, o qual dando huma queda as portas de Pariz, lhe sobreveio huma febre, que chegou àquella côrte com grande molestia e trabalho; d'alli expediu logo com intervenção dos banqueiros portuguezes Martins de Moura hum correio, o qual nos trouxe os ditos despachos com boa diligencia, e assim se não seguiu daquelle accidente mais damno que o de augmentar a despeza da carreira. Respondendo á carta de v. m.ce, que vinha em cifra, dizemos que todo o conteúdo nella havíamos de antes entendido, e que a interpretação na memoria, que a Rainha de Inglaterra enviou a França a respeito da nossa desistencia, nos occorreu, logo que os Ministros Inglezes nol-a communicaram. Porém sem embargo de havermos então dado e repetido muitas vezes aquella explicação, não esperamos que ella aproveite. Esta seria util, quando a Rainha melhorasse de animo a respeito dos nossos interesses, e segundo ella obrigar a El-Rei de França, este lhe dissesse que nós já tinhamos cedido. Para este caso vinha bem a explicação de que nós desistiramos de pedir de novo; mas que não desistiamos das Praças, que estavam em nosso poder. Porém em quanto a Rainha não muda o pouco affecto que tem aos interesses deste Reino, e se não resolve a desgastar os castelhanos, pelo que nos toca, he util a dita interpretação, e só poderiamos melhorar no systema, se as instancias de El-Rei Nosso Senhor podessem mover a Côrte de Londres, para cujo effeito tinhamos representado que Sua Magestade podia escrever à Rainha, e nos não consta pelo despacho de v. m.ce se o mesmo Senhor seguiu este caminho. Agora se acaba de ver as poucas attenções que devemos aos inglezes, pois pelas cartas de Jose da Cunha Brochado destes dias passados, terá v. m.ce sabido o despreso, com que naquella Côrte trataram as representações e queixas da duvida com que os castelhanos embaraçaram