Página:Quatro regras de diplomacia.pdf/17

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E muito póde o prestigio da nomeada, ainda mesmo desacompanhado do vigor correspondente. Vemos até onde elle póde chegar, pelo que nos conta um nosso chronista a respeito do Çamorim de Calecut, a quem, sendo vencido, bastava mandar tocar em certo tambor que na guerra sempre levava comsigo, para que o inimigo, parando logo, deixasse de ir em seu alcance[1].

Quanto mais não poderá, portanto, o prestigio reunido ao imperio da força! Confere tanta auctoridade só de per si, que facilita muito o andamento dos negocios, dependendo menos, n'este caso, o bom exito da missão, das qualidades e habilitações do encarregado d'ella, do que quando este representa uma Potencia cuja energia está só no direito e nas allianças. Em tal hypothese, pois, para fazer valer aquelle, e manter illesas estas ultimas, com menos risco de se expôr a sentença epigrammatica de um historiador ing1ez[2], muito importa não admittir aos cargos mais elevados do serviço diplomatico senão pessoas idoneas, e de provada capacidade; e salvas as excepções, d'onde ha de o Governo escolher com segurança os seus agentes, senão d'entre aquelles que ao sahirem dos bancos da Universidade, abraçam a respectiva carreira, dando, nas successivas categorias por onde hajam de passar, a necessaria prova de si mesmos? Ter esses cargos em conta de commissões sujeitas à mera conveniencia da politica partidaria, é meio pouco seguro ou vantajoso para fomentar as relações diplomaticas. Se prevalecesse o costume da antiga Athenas, onde o Presbeis era mulctado ao regressar á patria, quando por

    vagantes, antes o que os outros com mil correos nam ham, lhes dam chamando-os de suas casas pera ysso.» Ibid. p. 468.

  1. Andrada, Chron. de D. João III, tom. 3 pag. 403., ed. de 1796.
  2. «A government which has generally caused more annoyance to its allies than to its enemies» MACAULAY, Hist. of Engl., ch. 20.
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