Página:Quatro regras de diplomacia.pdf/29

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gal-o do partido do Infante em prol das pretenções da Rainha, «pediram ao Regente lugar e licença pera esta mesma embaixada hirem dar pellas Cidades e Villas, e assim aos principaes do Reino; mas o Regente por ser cousa nova e entam desusada, o nom outorgou nem consentiu, e se escusou com a semrezão d'elles, e com outras rezões assaz justas e onestas[1].» Pretendiam nada menos de que revolucionar o paiz! Era ingenuo pedirem licença para isso; mas ao menos foi pedida, não tomada.

É mais facil apontar os escolhos que o diplomata deve evitar, do que prescrever o caminho a seguir; pois que os caminhos são diversos como as indoles dos homens: quot capitum vivunnt, totidem studiorum millia.

Entre esses escolhos ha alguns que o simples bom gosto faz logo pre-sentir; como sejam os dous extremos da adulação ou da detracção, os quaes provocam desprezo ou odio. Se, como diz Machiavelli[2], o Principe não deve expôr-se nem a um, nem a outro, aos que o representam cumpre tambem fugir-lhes.

Nem viria ao caso recordar aqui a conducta de um Prusias rei de Bythinía, que, vindo em pessoa cumprimentar o Senado Romano, com o cabello rapado, vestido e calçado de manumisso, exclamou, ao aproximar-se a deputação que o vinha receber: «Vedes aqui um dos vossos libertos, disposto a quanto vos possa agradar, e a conformar-se a todos os vossos costumes»; accrescentando, ao ver-se em

presença dos Senadores reunidos, e depois de se ter prostrado a beijar o limiar da porta: «Saude-vos, deuses salvadores!» A consciencia que teria da propria abjecção, e

  1. Fernão Lopes, Chron. de D. Affonso V, cap. 62, nos Inedit. de Hist. Port., Tom. I.
  2. Il Principe, cap. 19.