costumes e língua[1]. Mas há outros pontos de não somenos valia e que são factores importantes de civilização: o comércio de novos objectos, a flora, a fauna, a agricultura e indústrias.
Nenhuma nação colonial tem menos egoísmo de raça e mais ten- dência à identificação com os indígenas do que a portuguesa[2]. O perspicaz estadista Afonso de Albuquerque não achou melhor meio de enlaçar o Oriente com o Ocidente e de consolidar o império que ia adquirindo do que a fusão dos conquistadores com os conquista- dos, e para isso envidou os seus esforços[3]. E se a sua atilada polí- tica não foi persistentemente seguida ou topou com graves dificuldades, nem por isso deixou de produzir consideráveis resultados. Ainda ao presente existem em várias regiões asiáticas grupos, mais ou menos numerosos, dos que se gloriam de descendentes dos primeiros civili- zadores europeus dos tempos modernos, da denominação de portu- gueses e de nomes e apelidos lusitanos; e teem por êste motivo direitos e regalias superiores aos de outras classes indígenas, ou os mesmos que os europeus, como em Maluco[4].
- ↑ Traces de Portugais dans les principales langues des Indes Orientales Neerlandaises.
- ↑ «Os portuguezes têem sido sempre n'este ponto muito tolerantes — e é esta uma das suas grandes qualidades de colonizadores — e não podiam considerar desdouro a alliança com as castas nobres da India, do mais puro sangue aryano». Conde de Ficalho, Garcia da Orta e o seu tempo, p. 169.
- ↑ Vid. João de Barros, Déc. II, v, 11: «E já a este tempo haveria em Goa quatrocentos e cincoenta casados, todos criados delRey, o da Rainha, e dos Senhores do Portugal, e eram tantos os homens que queriam casar, que se não podia Afonso do Albuquerque valer com requerimentos, e elle não dava licença se não a homens honrados». Commentarios de Afonso de Albuquerque, III, cap. 9. «Os Portuguezes tiram um espantoso lucro em toda a parte da India, onde tem entrada. Associam-se com os naturaes, que os acompanham em suas navegações, e até todos os seus marinheiros e pilotos são indios, ou gentios ou mouros». Pyrard de Lavai, Viagem, I, p. 313.
- ↑ «Os holandeses e os seus feitos cessaram de ser lembrados pelos singaleses da região baixa; mas os chefes do sul e do oeste perpetuam com orgulho o honorífico título de dom que lhes foi concedido pelos primeiros conquistadores, e ainda antepõem aos seus antigos patronímicos os sonoros nomes cristãos dos portugueses». Sir James Emerson Tennent, Ceylon, an account of the Island. «Servião nos nossos arraiaes quatro Modeliares naturaes, todos christãos, e filhos de Columbo dos principaes da Ilha... e se chamavão D. Aleixo, D. Cosme, D. Balthazar, e D. Theodozio». João Ribeiro, Fatalidade Histórica da Ilha de Ceilão, liv. II, cap. I.