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Página:Sebastião Rodolfo Dalgado - Influência do Vocabulário Português em Línguas Asiáticas (1913).pdf/63

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LVIII

INTRODUÇÃO

Fala-se em Malaca e nas ilhas de Sumatra (de mistura com outras línguas), Banca, Billiton, nas Molucas (ou Maluco[1]) e em algumas outras partes. A sua população está orçada em mais de dez milhões. Distingue-se em malaio própriamente dito e baixo malaio. O primeiro tem seu representante normal em Singapura e Malaca, e possui litera- tura em prosa e verso, escrita no alfabeto árabe modificado. O segundo, destituído de fonemas árduos e de formas complicadas, passa por lín- gua franca da Insulíndia, como o hindustani é a da Índia, e como tal é falado pela população indígena dos portos marítimos, embora não seja malaia de raça, e escreve-se comummente em caracteres ro- manos[2]. Ao baixo malaio pertence a fala de Batávia. Algumas palavras portuguesas tomam nela formas especiais, que vão notadas no voca- bulário, assim como as privativas das Molucas[3]. O malaio tem grande adaptabilidade a exotismos, e o seu vocabu- lário está repleto de ingredientes do sânscrito, árabe, persa, javanês, chinês, telugu e das línguas europeias[4]. A influência do português no malaio, particularmente no baixo, proveniente de conquista, longo domínio, comércio, evangelização, missões e crioulos, é vasta e funda, pois abrange enorme quantidade de vocábulos e estende-se até a verbos e partículas. Felizmente, há muitos trabalhos gerais e especiais sôbre o assunto.

Notas

  1. «Mas a lingua mais comum, e de que todos vsão, he a Malaya: que por ser mais doce, e de melhor pronunciação, se lhe afeiçoarão todos». Diogo do Couto, Déc. IV, VII, 7.
  2. «Chama-se a gente natural Malaya, e a lingoa tambem, que he propria, e per rezam do commercio de Malaca com todas as ilhas vizinhas, quasi por todas ellas se pratica, e entende». Lucena, Historia da vida do Padre Francisco de Xa- vier, liv. 111, cap. 10. «La langue qu'on appelle Malaye, est parmi les Orientaux ce que la langue Latine est dans nôtre Europe». Tavernier, Voyages, IV, p. 251.
  3. Os samsanas de Quedda em Malaca, siameses de raça, muçulmanos de reli- gião, falam malaio misturado com o siamês.
  4. «O malaio e o hindustani manifestam aquela capacidade para a absorção e assimilação de elementos estranhos que nós reconhecemos fazer do inglês a maior língua vernácula que o mundo jámais viu». Cust. A la suite des Portugais, vinrent les Hollandais, puis les Anglais, les Espa- gnols; en un mot, l'Europe entière vint s'implanter dans la Malaisie, dont la lan- gue dut s'augmenter d'une nouvelle série des mots appartenants aux diverses langues européennes», Favre.