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Página:Tratado descriptivo do Brasil em 1587.pdf/212

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de laranja ou ao comprido, ficando-lhe o grelo que tem dentro, que vai correndo do pé até o olho; e quando se corta fica o prato cheio de suino que d’elle sahe, e o que se. lhe come é da côr dos gomos de laranja, e alguns ha de côr mais amarella; e desfaz-se tudo em sumo na boca, como o gomo de laranja, mas é muito mais sumarento; o sabor dos ananazes é muito doce, e tão suave que nenhuma fruta de Hespanha lhe chega na formosura, no sabor e no cheiro; porque uns cheiram a melão muito fino, outros a comoezas: mas no cheiro e no sabor não ha quem se saiba afirmar em nada; porque, ora sabe e cheira a uma cousa, ora a outra. A natureza d’éste fruto é quente e humido, e muito damnoso para quem tem ferida ou chaga aberta: os quaes ananazes sendo verdes são proveitosos para curar chagas com elles, cujo sumo come todo o cancere, e carne podre, do què se aproveita o gentio: e em tanta maneira come esta fruta, que alimpam com as suas cascas a ferrugem das espadas e facas, e tiram com ellas as nodoas da roupa ao lavar; de cujo sumo, quando são maduras, os Indios fazem vinho, com que se embebedam; para o que os colhem mal maduros, para ser mais azedo, do qual vinho todos os mestiços e muitos Portuguezes são mui afeiçoados. D’esta fruta se faz muita conserva, aparada da casca, a qual é muito formosa e saborosa, e não tem a quentura e humidade de quando se come em fresco.

CAPITULO LVIII.
D’aqui por diante se vão arrumando as arvores e hervas de virtude que ha na Bahia.

Não se podiam arrumar em outra parte que melhor estivessem as arvores de virtude que apoz das que dão fruto; e seja a primeira a arvore do balsamo que se chama cabureîba; que são ar vores mui grandes de que se fazem eixos para engenhos, cuja madeira é pardaça e incorruptivel. Quando lavram esta madeira cheira a rua toda a balsamo, e todas as vezes que se queima cheira muito bem. D’esta arvore se tira o balsamo suavissimo, dando-lhe piques até um certo logar, donde começa de chorar este suavissimo licor na mesma hora, o qual se recolhe em algodões, que lhe mettem nos golpes; e como estão bem molhados do balsamo, os espremem em uma prensa, onde lhe tiram este licor, que é grosso e da côr do arrobe; o qual é milagroso