amarellas e muito compridas e grossas; as quaes se mantem do peixe que tomam nos rios e são muito gordas e boas para comer.
Pelos matos e ao redor das casas se criam umas cobras, a que os indios chamam gereracas; as maiores são de sete e oito palmos de comprido, e são pardas e brancacentas nas costas, as quaes se põem ás tardes ao longo dos caminhos esperando a gente que passa, e em lhe tocando com o pé lhe dão tal picada, que se lhe não acodem logo com algum defensivo, não dura o mordido vinte e quatro horas. Estas cobras se põem tambem em ramos de arvores junto dos caminhos para morderem a gente, o que fazem muitas vezes aos indios, e quando mordem pela manhã, tem a peçonha mais força, como a vibora; as quaes mordem tambem as egoas e vaccas, do que morrem algumas, sem se sentir de que, senão depois que não tem remedio. Tem estas cobras nos dentes prezas, as quaes mordem de ilharga; e aconteceu na capitania dos Ilhéos morder uma d’estas cobras um homem por cima da bota, e não sentir cousa que lhe doesse, e zombou da cobra, mas elle morreu ao outro dia; e vendendo-se o seu fato em leilão comprou outro homem as botas e morreu em vinte e quatro horas com lhe inchar as pernas; pelo que se buscaram as botas, e acharam n’ellas a ponta do dente, como de uma agulha, que estava mettida na bota; no que se viu claro que estas gereracas tem a peçonha nos dentes; estas cobras se criam entre pedras e paos podres, e mudam a pelle cada anno; cuja carne os indios comem.
Ububocas são outras cobras assim chamadas do tamanho das gereracas, mas mais delgadas, a que os Portuguezes chamam de coral, porque tem cobertos as pelles de escamas grandes vermelhas e quadradas, que parecem coral; e entre uma escama e outra vermelha, tem uma preta pequena. Estas cobras não remettem á gente, mas se lhe tocam, picam logo com os dentes dianteiros e são as suas mordeduras mais peçonhentas que as das gereracas, e de maravilha escapa pessoa mordida d’ellas. E quando estão enroscadas no chão parece um ramal de coraes; e houve homem que