ultimos cantos.
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O que dóe, mas de dor que não tem cura,
O que afflige, o que mata,
Mas de afflicção cruel, de morte dura,
É morrermos em vida
No peito da mulher que idolatramos,
No coração do amigo!
Amizade e amor — laço de flores,
Que prende um breve instante
O ligeiro batel á curva margem
Da terra hospitaleira;
Com tanto amor se enastra, e tão depressa,
E tão facil se rompe!
Á mais ligeira ondulação dos mares
Ao mais ligeiro sopro
Da viração — destranção-se as grinaldas,
O baixel se afasta.
Veleja, foge, até que em plaga estranha
Naufragado soçobre!
Talvez permitte Deos que tão depressa
Estes laços se rompão,
Por que nos peze o mundo, e os seus enganos
Mais sem custo deixemos:
Sem custo assim a brisa arrasta a planta,
Que jaz solta na terra!