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FOLHETIM



UMA LÔA DO NATAL EM PROSA


CONTO PHANTASTICO
DO NATAL
POR
CHARLES DICKENS
(Versão do original inglez)
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ESTROPHE IV


O ultimo dos Espiritos


(Continuado do n.º 15)

Não se póde dizer propriamente que entraram na city[1] porque parecia antes que se via a city surgir e rodeal-os com o seu bulicio e movimento contrario. Acharam-se no coração d'aquelle bairro commercial, na Bolsa, no meio dos negociantes que corriam apressados d'um lado para o outro, ou faziam tinir o dinheiro nas algibeiras, ou conversavam em grupos, ou olhavam para os relogios, ou brincavam pensativos com os sinetes d'oiro, etc., etc., etc., como Scrooge tivera occasião de vêr antes.

O Espirito parou junto d'um pequeno grupo de negociantes. Observando que a mão do seu companheiro estava apontada para o grupo, Scrooge approximou-se para ouvir a conversação.

— Não… dizia um sugeiro gordo com um monstruoso queixo, não sei mais nada. Só sei que elle morreu.

— Quando morreu ele? inquiriu um outro.

— A noite passada, segundo me parece.

— Como!.. de que morreria elle? perguntou um terceiro, tirando uma grande pitada de rapé d'uma immensa caixa de prata. Julguei que o homem não morria…

— Só Deus o sabe! disse o primeiro, com um bocejo.

— Que faria elle ao dinheiro? perguntou um outro de caraça avermelhada, e com uma excrescencia de carne pendente do nariz e bambaleando-se como as cristas dos perús.

— Eu sei lá, disse o sugeito do queixo grande bocejando novamente. Talvez o deixasse ao seu socio. O que eu sei é que a mim não me deixou nem um penny.

Este gracejo foi recebido com universal gargalhada.

— Deve ser um funeral de pouco custo, continuou o mesmo, porque, palavra de honra, estou certo que não vai lá ninguem. Vamos nós lá para vermos, sem convite?

— Não se me dava de ir se houvesse lunch, observou o sugeito da excrescencia no nariz. Quero ser pago do meu trabalho.

Nova gargalhada.

— Pois bem, no meio de tudo vejo que sou eu o mais desinteressado, disse o que primeiro fallou, porque não ia lá nem por umas luvas pretas, nem por o lunch, mas offereço-me a ir ao enterro se alguem me quer acompanhar. Quando me ponho a pensar bem, não posso deixar de reconhecer que talvez fosse eu o seu maior amigo, porque costumavamos trocar duas ou tres palavras quando nos encontravamos. Meus senhores, até logo.

Foram-se afastando uns e outros e juntando-se a outros grupos. Scrooge conhecia aquellas pessoas, e por esse motivo olhou para o Espirito a fim de lhe pedir explicação do que ouvira.

O Phantasma introduziu-se por uma rua e mostrou com o dedo dois individuos que se encontravam. Scrooge novamente exitou, julgando poder agora encontrar a explicação do que antes ouvira.

Conhecia perfeitamente os dois sugeitos; eram ambos ricos capitalistas, e muito considerados. Scrooge tratara sempre de mereceer a estima de elles… no ponto de vista dos negocios, entenda-se; estrictamente no ponto de vista dos negocios.

— Como está? disse um.

— Bem obrigado, e o meu amigo? retorquio o outro.

— Bom, disse o primeiro. Então o velho Sovina lá foi marchando! heim?..

— Assim me disseram, replicou o segundo… Faz frio não é verdade?

— Não ha esperar outro tempo agora por o Natal. O meu amigo não gosta de patinhar, supponho eu.

— Não, não gosto. Tenho mais em que cuidar. Até á vista.

Nem uma palavra mais. Assim se encontraram, conversaram e partiram.

Scrooge a principio estava um pouco tentado a mostrar-se surpreso por o Espirito ligar importancia a conversas na apparencia tão triviaes; mas intimamente convencido de que deviam ter algum fim occulto, principiou a perguntar a si mesmo a que se refeririam. Não era natural suppor que tivessem a minima relação com a morte de Jacob, seu antigo socio, porque tal acontecimento pertencia ao passado, e o Espirito só estava encarregade do Futuro. Nem podia recordar-se de ninguem do seu conhecimento a quem aquellas palavras se podessem applicar.

Todavia, não duvidando, que a quem quer que fosse que se applicassem, tinham algum fim occulto de moralidade em beneficio seu, resolveu conservar bem presente na memoria não só todas as palavras que ouvisse, como tudo o que presenceasse; e especialmente observar a sua sombra quando apparecesse, persuadido como estava de que a coducta no seu futuro lhe daria a chave do enigma indecifravel até alli, e lhe tornaria a solução facil.

Olhou em redor de si para ver se encontrava a sua imagem n'aquelle logar; mas outro homem occupava o seu cantinho favorito, e apezar do relogio marcar a hora preciza a que costumava apparecer na Bolsa, não viu ninguem que se assemelhasse comsigo em toda gente que se agglomerava no portico para entrar. Este facto, todavia, pouca surpreza lhe causou, porque desde que os Espiritos o principiaram a visitar, Scrooge tinha meditado uma mudança de vida, e pensou, e teve a esperança de que já aquillo era signal de que as suas resoluções estavam em pratica.

Sombrio e immovel conservava-se o Phantasma a seu lado com o braço estendido. Quando Scrooge voltou a si das suas meditações, imaginou pelo movimento da mão, e pela posição do espectro em referencia a si, que este o estava contemplando physicamente com os seus olhos invisiveis.

Tal pensamento fel-o estremecer e arrefecer muito.

Deixaram esta scena buliçosa dos negocios, e dirigiram-se a um bairro obscuro da cidade, onde Scrooge nunca penetrara antes, apezar de reconhecer a sua situação e a sua má reputação.

As ruas eram immundas e estreitas, as casas e as lojas despreziveis, os moradores meios nus e esfarrapados, mizeraveis e embriagados. Os beccos e as viellas, como outros tantos esgotos, vomitavam a sua repellente immundicie, e os seus asquerosos habitantes, n'este labirintho de ruas; em todo o bairro respirava-se o crime, a porcaria e a mizeria.

No fim d'este infame covil via-se uma loja baixa, tendo na frente um alpendre, na qual se compravam ferros, garrafas, roupa usada, ossos, e os restos dos jantares dos dias antecedentes. No chão, dentro da loja, estavam amontoadas pilhas de chaves enferrujadas, pregos, cadeiados, dobradiças, limas, balanças, pezos, e toda a especie de objectos de ferro. Segredos que poucos teriam a curiosidade de devassar estavam talvez occultos n'esses montes de nojentos farrapos, sob esses montões de comida em corrupção, e sob esses enormes sepulchros de ossos. Sentado no meio dos objectos do seu trafego, junto a um velho fogão, encontrava-se um bregeiro de cabellos ruivos, com perto de sessenta annos de idade, abrigando-se do ar frio do exterior por meio d'uma suja cortina feita de farrapos de variegadas côres, suspensa n'uma corda. O personagem em questão estava fumando n'um cachimbo, e saboreando as fumaças com todo o socego d'espirito.

Scrooge e o Phantasma acharam-se na presença d'este homem exactamente na occasião em que uma mulher, com um volumoso embrulho, se introduzia rapidamente no estabelecimento. Apenas ella tinha entrado quando uma outra mulher, com fardo igual, tambem appareceu, e a esta ultima seguiu-se um homem vestido de preto, com roupa já usada, que não ficou menos surprehendido com a vista das duas mulheres do que ellas tinham ficado quando ambas se reconheceram mutuamente.

Depois d'alguns segundos de mudo pasmo partilhado igualmente pelo homem do cachimbo, todos tres desataram em gargalhada geral.

— Licença primeiro á jornaleira, exclamou a mulher que entrara primeiro. A lavadeira será a segunda; e em terceiro logar virá o armador. Olha lá, velho Joe, parece isto um acaso! Não parece que nos combinamos todos tres para aqui nos encontrarmos?

— Não se podiam juntar em melhor logar, disse o velho Joe, retirando o cachimbo da bocca. Entrem para a salla. Ha muito que você entra aqui como em sua casa, e os dois outros tambem não são estranhos. Esperem que vou fechar a porta da loja! Como ella range!

Em todo o meu estabelecimento não ha pedaço de ferro tão ferrugento como as dobradiças d'esta porta, assim como não ha ossos tão velhos como os meus! ah ah! Estamos todos em harmonia com o nosso officio! Entrem na salla, entrem na salla.

A sala era o espaço que se estendia atraz da cortina de farrapos.

O velho, dono do estabelecimento, atiçou o fogo com o rabo d'uma vassoura velha, e depois de ter avivado com o bocal do cachimbo a torcida da candeia cheia de fumo, levou-o de novo á bocca.

Em quanto o dono da casa fazia esta operação, a mulher que já fallara antes atirou o embrulho ao chão e sentou-se n'um banco em posição sem ceremonia, collocando os cotovellos nos joelhos e deitando sobre os outros um olhar de desafio.

— E então que maravilha é, mistress Dilber? disse a mulher. Todos tem direito de cuidar de si proprios. E elle durante a vida, fez outra coisa?

— Lá isso é verdade! disse a lavadeira. Ninguem cuidou mais de si do que o tal bargante.

— Então, mulher do mafarrico, não esteja a abrir os olhos como quem tem medo. Ladrão que rouba a ladrão tem cem annos de perdrão.

— Oh! Deus queira que se verifique o dictado, disseram mistress Dilber e o homem ao mesmo tempo.

— Ora então estamos conformes, exclamou a mulher.

E estejam bem certos que ao defuncto não hão de fazer falta estas bagatellas.

— Com certeza que não, disse mistress Dilber sorrindo-se.

— Se o bargante as queria conseavar depois de morto, proseguiu a mulher, porque não fez como toda a gente? Se não fosse tão miseravel teria um guarda para estar junto do leito quando a morte o levou, em logar de se afinar ahi para um canto como o mais miseravel animalejo.

— Falla a pura verdade, disse mistress Dilber. Aquillo foi castigo do céo. Altos juizos do Senhor!

— Queria que fosse mais pesadinho um bocado, disse a mulher apontando para o embrulho, e teria sido, podem estar certos, se eu tivesse podido por as mãos em alguma coisa mais. Abre esse sacco, velho Joe, e diz-me, o valor do contheudo. Falla com franqueza homem. Não tenho medo de ser a primeira nem receio que elles o vejam. Julgo que sabiamos perfeitamente antes de nos encontrarmos aqui que cada um de nós tractava da sua vida. Não ha mal por isso. Abre o embrulho Joe.

Seguiu-se um debate causado pela delicadeza.

Todos a um tempo queriam mostrar o resultado das suas campanhas, e o homem de casaco preto subindo primeiro á brecha apresentou o producto da sua rapina. Não era consideravel — um sinete ou dois, uma lapiseira, um par de botões dos punhos, e um alfinete de pouco valo, eis no que se resumia tudo. Cada objecto foi examinado e avaliado pelo velho Joe, que notou a giz na parede as quantidades que estava resolvido a dar, e sommou o total quando viu que não tinha mais nenhum objecto que receber.

— Esta é a sua conta, disse elle, e não dou six-pence mais, ainda que me fritassem. Quem se segue?

(Continua).
  1. City, o bairro de Londres onde se encontram todos os escriptorios, a praça, alfandega, etc.