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FOLHETIM



UMA LÔA DO NATAL EM PROSA


CONTO PHANTASTICO
DO NATAL
POR
CHARLES DICKENS
(Versão do original inglez)
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ESTROPHE IV


O ultimo dos Espiritos


(Continuado do n.º 16)

O Espirito conduziu-o atravez de varias ruas que lhe eram familiares, e á medida que caminhavam olhava Scrooge em todas as direcções, esperançoso de reencontrar a sua imagem, mas em parte alguma a via. Entraram na casa do pobre Bob Cratchit, a mesma que elle já visitára, e encontraram a mulher e os filhos em volta do fogão.

Todos estavam socegados, muito socegados. Os pequenos Cratchits, d'ordinario muito traquinas, conservavam-se tão quietos a um canto como estatuas, estavam sentados olhando para Pedrinho, que tinha um livro diante de si. A mãe e as filhas occupavam-se a coser. — Todos conservavam um profundo silencio.

E elle arrebatou uma creança e sentou-a no meio d'elles.

Onde ouvira Scrooge estas palavras? Não as tinha sonhado. Forçosamente o rapaz devia tel-as lido em alta voz quando elle e o Espirito chagaram ao limiar da porta. Porque não continuava elle a leitura?

A mãi pousou a costura sobre a meza, e cobriu o rosto com as mãos.

— A côr d'esta fazenda faz-me mal á vista disse ela.

A côr!... pobre Tiny Tim!

— Estou melhor agora, disse a mulher de Cratchit. Os olhos fatigam-se-me sem duvida em trabalhar com luz; no entanto, por cousa nenhuma d'este mundo desejaria mostrar os olhos fatigados a teu pae quando entrasse. Não deve tardar muito, são horas de elle chegar.

— Já elle vem um pouco mais tarde que o costume, respondeu Pedrinho fechando o livro. Parece-me que o pai tem-se demorado mais estas ultimas tardes.

Do novo ficaram todos silenciosos. Por fim a mãe disse com voz firme e risonha, deixando este tom uma unica vez:

— Havia tempo em que elle caminhava depressa, muito depressa com... com Tiny Tim aos hombros; recordo-me bem.

— E eu tambem me recordo; muitas vezes os vi assim.

— E eu tambem, exclamou um outro.

Todos repetiam, «e eu tambem»».

— Mas Teny Tim pouco encommodava, continuou a mãi olhando attenta para a costura, e o pae tanto o estimava, que não lhe era penoso... não. — Sinto bater á porta, disse de repente mistress Cratchit; é vosso pae.

A infeliz senhora correu ao encontro de seu marido, e o pequeno Bob com a sua manta de lã — coitado, bem necessidade tinha d'ella! — entrou na salla. O chá estava prompto, e aquecendo no fogão; todos á porfia queriam servil-o ao recem-chegado. Os dois pequenos Cratchits treparam-lhe acima dos joelhos, e cada um delles encostou a sua meiga e mimosa face á do pae como querendo dizer: Não pense n'isso papá. Não esteja afflicto!

Bob mostrou-se muito alegre e para todos teve palavras affectuosas. Olhou para a costura sobre a meza, e elogiou a habilidade e industria de sua mulher e filhas.

— Ha-de-se acabar esta tarefa antes de domingo, disse elle.

— Domingo! Fosteis então hoje...? Roberto, disse sua mulher.

— Sim minha querida, replicou Bob. Desejaria que tivesseis alli hido. Far-te-hei bem vêr como estava verdinho o logar. Ha-des ir vel-o a miudadas vezes. Prometti-lhe que iria alli passeiar aos domingos... Meu pobre filhinho, exclamou Bob! meu pobre filhinho!...

E saltaram-lhe dos olhos abundantes lagrimas sem que lhe podesse obstar. Para isso era necessario que maior distancia de tempo o separasse de seu filho.

Deixou o quarto e subiu para a salla de cima, que estava bem illuminada, e adornada de flores e grinaldas como no Natal. Havia uma cadeira junto do leito da creança, e tambem signaes evidentes d'alguem alli ter estado recentemente.

O pobre Bob sentou-se na devoluta cadeira e depois de ter meditado algum tempo, e quando estava mais socegado, beijou o rosto da creancinha no berço. Resignou-se então com o que acontecera, e tornou a descer mais alliviado... na apparencia.

Todos se approximaram do fogão e principiaram a conversar; a mãe e as filhas continuavam com os olhos pregados na costura. Bob fallou-lhes da extraordinaria affabibilidade do sobrinho de Scrooge, que apenas vira uma unica vez e que encontrando-o na rua n'aquelle dia e vendo-o «um pouco... um pouco triste, disse Bob, informou-se com interesse do que me succedera de mau».

«E eu, preseguiu Bob, porque elle é o cavalheiro mais amavel que tenho visto, narrei-lhe tudo.

«— Sinto do coração o que me conta senhor Cratchit, disse elle, não só por si como por sua excellente esposa.

— A proposito como é que elle saberia isso?

Isso, o que?

— Que tu eras uma excellente mulher, replicou Bob.

— Toda a gente sabe isso, disse Pedrinho.

— Sim senhor!... muito bem dito, meu rapaz, replicou Bob. Espero que toda a gente conheça as boas qualidades de minha mulher.

«— Sinto muito por causa de sua excellente mulher, disse elle; se lhe posso ser d'utilidade para alguma coisa, continuou dando-me o seu bilhete de visita, aqui tem a indicação da minha morada. Peço-lhe que me venha fazer uma visita.

— Pois bem, exclamou Bob, fiquei encantado com aquelle moço, não tanto pelos serviços que nos poderia prestar, como pelas suas palavras affaveis e maneiras attenciosas!

Parecia realmente que tinha conhecido o Tiny Tim, e que o carpia como nós.

— Estou certa que esse rapaz é dotado d'uma boa alma, disse mistress Cratchit.

— Mais certa ficarias, minha cara amiga, replicou Bob, se o tivesses ouvido e lhe tivesses fallado. Não ficaria muito surprehendido, toma bem nota, se elle arranjasse um melhor logar para Pedrinho.

— Olha o que diz teu pai, Pedrinho! disse mistress Cratchit.

— E então, exclamou uma das meninas, Pedrinho arranjará uma esposa, e ha de estabelecer-se.

— Vai-te pessear, patetinha, retorquiu Pedrinho fazendo uma careta.

— Quem sabe se isso poderá ou não acontecer qualquer dia, quando menos o esperarmos? todavia ha muito tempo para pensar no caso. Mas de qualquer modo, e em qualquer tempo que nos separemos uns dos outros, estou certo que nenhum de nós esquecerá o pobre Tiny Tim... não é verdade que nunca esqueceremos esta primeira separação?

— Nunca, meu pai, nunca, exclamaram todos.

— Eu bem sei, disse Bob, eu bem sei meus filhinhos, que quando nos recordarmos da extrema bondade e resignação de Tiny Tim — apesar d'elle ser uma creancinha — não será facil altercarmos uns com os outros, porque seria então esquecermo-nos d'aquelle pobre menino.

— Juramos que nunca altercaremos, meu pai, repetiram todos.

— Sou muito feliz! disse o pequeno Bob, muito feliz!

Mistress Cratchit abraçou-o, as filhinhas beijaram-no, os dois pequenos beijaram-no igualmente e Pedrinho apertou-lhe cordialmente a mão. Alma de Tiny Tim a tua essencia infantil era uma emanação da Providencia!...

— Espectro, disse Scrooge, alguma coisa me diz que o momento da nossa separação não está longe. Sei isso, sem saber como terá lugar. Dize-me antes, que homem era o que estava jazendo no leito?

O Espirito do Natal futuro transportou-o, como antes — ainda que a epocha differente, segundo Scrooge julgava; na verdade pareceia não haver ordem nas ultimas visões, a não ser que todas se referiam ao futuro — transportou-o aos lugares onde se reuniam os negociantes, mas não lhe mostrou a sua imagem, como fizera primeiramente.

O Espirito não parou em parte nenhuma, mas continuou a sua marcha directamente para chegar mais depressa onde desejava, até que Scrooge lhe supplicou que parasse um momento.

— Este largo, disse Scrooge, que atravessamos com tanta pressa, é o lugar das minhas occupações desde muito. Acolá vejo o meu escriptorio: deixai-me ver o que eu serei um dia.

O Espirito parou; a sua mão desiguava differente direcção.

— A casa é alli, disse Scrooge; porque apontaes para differente lugar.

O dedo inexoravel não mudava de direcção. Scrooge correu apressado á janella do seu escriptorio, e olhou para dentro. Era um escriptorio ainda, mas não o seu. A mobilia já não era a mesma, nem a pessoa assentada á escrivaninha era a sua imagem. O phantasma continuava a apontar como antes.

Scrooge aproxiou-se do Espirito, e perguntando a si mesmo porque não veria a sua imagem no escriptorio, e onde teria ido, acompanhou o seu guia até chegarem a uma grade de ferro. Scrooge, antes de entrar, parou para olhar em redor de si; achavam-se n'um cemiterio.

Aqui indubitavelmente jazia sob algumas pás de terra o desgraçado cujo nome lhe ia agora ser revelado. Era um bello lugar na verdade!... cercado de muros das casas visinhas, invadido pela herva e pelas silvas, antes a morte da vegetação do que a vida; amontoado com innumeras sepulturas, e cheio a mais não pode ser. Bello lugar, na verdade!...

O Espirito conservou-se em pé entre os tumulos e apontou para um. Scrooge aproximou-se a tremer. O Phantasma era sempre o mesmo, mas Scrooge receiou ver na sua apparencia solemne algum novo agouro de que teve medo.

— Antes de eu me aproximar d'essa lapide, para a qual apontaes, disse Scrooge, repondei-me a uma pergunta. São estas as sombras de acontecimentos futuros, ou de acontecimentos que se poderão realisar?

Por unica resposta o Espirito apontou para o tumulo junto do qual se achavam.

— As resoluções dos homens não podem obstar a certos resultados inevitaveis, se elles perseverarem em caminhar na mesma via, dissse Scrooge. Mas se mudam de caminho, os resultados são differentes. Dar-se-ha esse caso com as sombras que mostraes?

O Espirito conservava-se immovel como antes.

Scrooge arrastou-se até ao tumulo, tremendo cada vez mais á maneira que caminhava; e seguindo a direcção do dedo leu sobre a lapide de uma sepultura abandonada:

AQUI JAZ

EBENEZZER SCROOGE

— Sou então o homem que estava jazendo no leito?! exclamou elle cahindo de joelhos.

O dedo do Phantasma dirigia-se alternativamente do tumulo para elle e d'elle para o tumulo.

— Não, Espirito. Oh! não, não...

O dedo continuava sempre nas mesmas evoluções.

— Espirito! exclamou elle segurando-se-lhe á tunica, ouvi-me! Já não sou o homem que fui. Não serei o homem que viria a ser, se não tivesse a felicidade da vossa interferencia na minha vida. Porque me mostraes essas coisas se já me não é concedida a esperança de me regerar?

Pela primeira vez a mão pareceu fazer um movimento

— Bom Espirito, proseguiu Scrooge, prostando-se a seus pés como antes, vós intercedereis por mim e tereis compaixão de mim. Certificae-me que eu poderei ainda mudar essas sombras que mostrateis, mudando de vida!


A mão estremeceu com um gesto de benevolencia.

— Honrarei o Natal, do fundo do meu coração, e esforçar-me-hei por guardar o seu culto durante todo o anno. Viverei no passado, no presente e no futuro: não me abandonarão os tres espiritos porque não quero olvidar as boas lições que me deram. Oh! dizei-me que posso apagar a inscripção d'esta lapide!

Na sua agonia agarrou a mão do Espectro. Este procurou libertar-se, mas Scrooge deteve-o com força. O Espirito, mais forte do que elle, repelliu-o ainda d'esta vez.

Segurando-lhe nas mãos a ver se conseguia a mudança do seu fado, viu uma alteração no vestido e na forma do Phantasma, que foi diminuindo, encolhendo-se, e desapparecendo até que se transformou n'uma columna de leito.

(Continua).