Página flagrante

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Página flagrante
por Cruz e Sousa
Texto publicado em Missal

Inflamados de sol, como pássaros no esplendor da aurora, partiam Ambos a digressões singulares, por manhãs alegres, da alegria impulsiva e bizarra das Hallalis de caça.

Uma virginal exalação de leite, um aroma finíssimo de lilás e rosa errava pelos prados sãos e férteis, na grande luz alastrante e germinadora da primavera.

Na franqueza heróica da força que a expansão vigorescente da Natureza lhes infiltrava, experimentavam Ambos uma sensação aguda de espiritualidade, um eletrismo de idéias, que os agitava, davalhes intensa vibratilidade, uma embriaguez fascinante de acre aticismo mental, por entre os radiantes orientalismos de luz.

E eles partiam nervosamente, alvoroçados, finos, fulgurantes, como sobre a impressão da alta e convulsionante música wagneriana.

De uma abundante e luxuriosa vegetação psíquica, enclausurados na Arte, como numa cela, lá iam sempre nessas continuadas batidas, nesses verdadeiros assaltos ao Ideal, num fausto de Império romano, arrebatados pela grande borboleta iriante, fugidia e fascinadora da Arte.

Vinham, então, os livres exames, os amplos golpes de Crítica, ao fundo e ao largo, através dos turbilhões luminosos do sol.

Quase feroz, cheio de bárbaros venenos e ao mesmo tempo untuoso como os inquisidores, um deles fazia vagamente lembrar a urze das montanhas áridas, sobre a qual, entretanto, O Azul canta de dia os hinos claros do sol e à noite a luminosa barcarola da lua e das estrelas.

O outro, recordava, também, por sua exótica natureza, perpetuamente envolta numa bruma de mistério, um Cristo célebre de Gabriel Max, corpulento, viril, de aspecto igualmente aterrador e piedoso, que vi uma vez numa galeria...

Organizações dúbias, obscuras, de acridão agreste, que representam, na ordem animal, o que representa, para as camélias e para as rosas, o cróton.

E aquelas duas almas, intelectualmente impulsionadas, abriam-se em chamas altas, aos deslumbramentos de sua estesia.

As idéias fugiam, cabriolavam, penetravam todo o arcabouço do assunto, tomavam formas, aspectos estranhos, macabros; e era tal a intensidade, a veemência com que brotavam do cérebro, que pareciam viver, radiar, ter cor, vibrar.

A verve esfusiava, mentalizada pela Análise, pela Abstração e pela Síntese; sátiras frias, cortantes como rijos e aguçados cutelos, espetavam capras a carne tenra, viçosa, próspera, de S. Majestade Imbecil; e, para supremamente assinalar todas as surpresas e elevação do Entendimento, uma psicologia rubra, flamante, sangrava, sangrava em jorro, torrencialmente sangrava.

E eram boutades maravilhosas, a charge leve, pitoresca, ferreteando, zumbindo sobre os homens circunspectos, que passavam, o andar solene, ritmado, em cadência, como na marcha das procissões.

E Ambos riram, riram, numa risada sonora e forte, como se festins cintilantes, bacanais, triclínios, todas as vermelhas orgias do Espírito, lhes cristalinamente no riso.

De repente, como uma pausa repousadora nesse crepitante incêndio de verve, penetravam sutilmente com delicadezas extremas, nos pensamentos mais curiosos, mais sugestivos, nos amargos dolorimentos e pungências latentes da Arte.

Diziam coisas aladas, quase fluídas, que determinavam a abstração do ser que os animava e floria; tinham essa percepção, esse entendimento profundo, tanto luar como o sol, que explica, mais ainda do que o que se perpetua em flagrância num livro, a poderosa força criadora, a ductilidade, a emoção e a contensão nervosa de raras naturezas artísticas.

Refletiam que certo modo de colocar, de por as mãos, de certas mulheres, lhes fazia longamente considerar, meditar nas monjas...

Pensavam que no mundo há naturezas tão excêntricas e nebulosas que, pelas condições complexas em que se encontravam na vida, precisariam de uma filosofia nova, original, para determiná-las. Eram como que existências eriçadas de abetos alpestres, carnes que se rasgavam, se despedaçavam...

As rosa, pareciam-lhes belezas opulentes, pomposas, da Inglaterra...

E todo o universo estava agora tão atrozmente perseguido por tédios mortais, que os homens já naturalmente falavam em morrer, como quem fala em viajar ou em rir...

Quanto à Arte, queriam que a expressão, que a frase vivesse, brilhasse, sonora e colorida, como um órgão perfeito. Que tudo o que disseram ficasse imperecível, eterno, perpetuado no Espaço e no Tempo, com os sons que os circundavam, a cor, a luz, o aroma que os atraía.

As palavras deveriam ser, para se eternizarem, cravadas no ar límpido, como num forte cristal de rocha.

Era a ânsia dos requintes supremos, a exigência das formas castas, que os fascinava, que os seduzia, tentava, como nudez formosa de mulher virginal. Tudo, enfim, na Arte, deveria ficar luminoso e harmonioso, como um cantar d’astros.

E lá caminhavam, inquietos, vertiginosos, no esplendor matinal, que os alagava e fecundava, como um prodigioso rio de ouro e diamantes, terras maravilhosas e produtivas.

Iam à conquista das Origens verdes, das puras águas brancas da Originalidade, dentre o vibrante alarido de cristal dos seus temperamentos austrais, ardentes e sangrentos.

Como orquestrações largas, sinfonias vivas de emoções e idéias, rompiam dia a dia nessas batidas frementes, numa transcendência de princípios e sentimentalidades - talvez no íntimo dolorosos, lancinados pelo Miserere das Ilusões elevadas.

E, muitas vezes, já alta madrugada, sob o sereno e suave adormecer das estrelas alvorais, não era sem uma derradeira Apóstrofe à soberana Chatice que essas duas existências chamejantes se separavam, num grande clarão espiritual de afetos.

Então, um deles, numa aclamação, num gesto singular e profético, arrojava, além, para os séculos, esta charge infernal, suprema:

— A divina Estupidez, a onipresente Imbecilidade ficaria eterna, ao alto, junto às nuvens, sobre uma estranha Babel de milhões de degraus de bronze, como num trono colossal, bufando e roncando, a dominar as imensidades, fantasticamente, onipotentemente, guardada por cem mil esquadrões ferozes, monstruosos e formidáveis, de hipopótamos e búfalos!...