Pacotilha poetica/Em que pensa quem lhe ama na hora em que se deita

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Pacotilha poetica
Em que pensa quem lhe ama na hora em que se deita


SENHORAS

2 Pensa em vós, e o que deseja
  Sabe o céo, minha senhora,
  Elle que tanto vos ama,
  Que até mesmo vos adora.

3 Acordado, o pensamento
  Vem morrer nos vossos braços;
  Dormindo, sonha que existe
  Preso a vós por santos laços.

4 Que cuidais? Que pensa em vós?
  Elle acaso vos quer bem?
  Vive p'ra outra que vende
  Acassá e aberêm.

5 Pensa que ha de ganhar
  Dinheiro como farinha,
  E se dorme, logo pensa
  Que já p'ra terra caminha.

6 Pensa que vós cuidais
  Qu'elle vos quer muito bem,
  Quando elle namoro serio
  Nunca teve com ninguem.

7 Pensa que sois uma ingrata,
  Uma má, uma falsaria,
  Que sois sómente constante
  Em bem saberdes ser varia.

HOMENS

2 Que longe de vós suspira
  Por viver em vossos braços;
  Que deseja mais que nunca
  De hymineu os sacros laços.

8 N'um certo bicho careta,
  Que tem o trovão por voz,
  Tem um pescoço de paca,
  E que dizem que sois vós.

4 Naquelle a quem como vós
  Ella já deu o seu sim;
  Onde e quando? Foi ha pouco,
  No botanico Jardim.

5 Não pensa em ti, resentida
  De teu duro ameaço,
  Porém pensa no philosopho
  Que vês no largo do Paço.

6 Pensa que sois um tratante,
  Homem falso, homem sem fé,
  Porque, faltando ás promessas,
  Sois só digno de galé.

7 Pensa que ainda um dia
  Vos ha de as contas tomar!
  Pobre moça, quem pudesse
  A sua dôr minorar!

SENHORAS

8 Pensa que não é ditoso
  Quem não possue vosso amor,
  Mas que é também desgraçado
  Por terdes tanto rigor!

9 Pensa em certas amores
  Lá da Ponta do Cajú;
  Não a vós ama o melrinho,
  Porém a certo urubú!

10 Elle pensa que trahido
   E' por vós o seu amor!
   E por isso chora o triste
   De seu destino o rigor!

11 Que um dia elle já vos teve
   Ditosa nos braços seus,
   Fingindo que desmaiaveis
   "Bradando:— eu morro, meu Deus.

12 Pensa que sois rigorosa
   E qu'elle se vingará,
   Pois pelo entrudo que vem
   Mil peças vos pregará.

HOMENS

8 Que ainda virá um dia
  Em que casada será
  Com um certo bacharel,
  Que a chegar não tardará.

9 Parafusa, parafusa
  Com quem ha de se casar;
  Pois de seis que tem á mão,
  Nem um lhe póde agradar.

10 Lê umas cartas cheirosas,
  De perfumado papel;
  Amigo, a falsa que amas
  Sempre te foi infiel!

11 Em nada, em nada, que dorme
  Com quem tanto lhe quer bem!
  O seu bemzinho tão doce,
  E' um saguy que ella tem!

12 Em que pensa? Pois ah! pensa
  Quem ahi vos chega a amar?
  Para amar a banasolas
  E' preciso douda estar.