Pacotilha poetica/Que vicio tem que deva corrigir

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Pacotilha poetica
Que vicio tem que deva corrigir


SENHORAS

2 O de estar sempre mordendo
  Vossos beiços arroxados.
  Bordão de que já se riem
  Dous de vossos namorados.

3 Que ides ouvir missa
  Não dais lá muita attenção;
  A vossa alma se perde
  Por causa do coração!

4 Dizem que quando falais
  Usais de um certo bordão;
  Se quereis que não critiquem
  Falai com mais attenção.

5 Um orgulho desmarcado
  E' só o vosso defeito,
  A ignorancia é a causa
  Que produz tão grande effeito.

6 Mentis! Mentis por demais,
  Pois não se fala em namoro
  Que não inventeis mil casos
  A favor! Que desaforo!

7 Um, aquelle que vos disse;
  Um, aquelle que aqui passa;
  Tende mão, e corrigi-o,
  Evitai vossa desgraça.

HOMENS

2 Que gostais de certa cousa,
  Dizem todos por ahi;
  Não rendais cultos diarios
  A' bella de Paraty?!

3 Tendo vós medo de tudo,
  Sois tão traidor como um rato,
  Se tirais qualquer sardinha
  E' só pela mão do gato.

4 Se olhais p'ra qualquer senhora,
  Pensais logo que vos ama;
  E o peior é que o assoalhais
  Pelas cem bocas da fama.

5 Deverieis ser discreto,
  Que é bem feia a indiscrição;
  Mas em parte eu vos desculpo,
  Tendes franco coração.

6 Sois no jogo arrebatado
  Quando não vos corre bem;
  Em casa, cheio de iras,
  Gritais mais do que ninguem.

7 Nunca dos outros falais,
  Que nisso não sois Riseu,
  Mas o muito que falais
  São só louvores ao — eu!

SENHORAS

8 1º Sois mui gulosa,
  2º Sois tagarela,
  3º Sois inconstante,
  4º Campais de bella.

9 Estais sempre tão sisuda
  Que todos reparam nisso,
  E vós sorris só ouvindo
  Uma voz que tem feitiço!

10 Elle, aquelle que vos ama,
  Quizera muda vos ver!
  Falais por demais, senhora,
  Mais cuidado deveis ter.

11 Em toda a parte quereis
  Pela primeira passar;
  Se ninguem vos dá valia,
  Quereis por vós a tomar.

12 Pensais que todos vos acham
  Muito digna de attenção,
  Porém os vossos feitiços
  Já não causam tentação.

HOMENS

8 Sendo tolo, vós quereis
   Campar só de sabichão,
   Mudais de côr na politica
   Que nem um cameleão.

9 Muitos! tomais sem conta
   Negro esturro, e pitais pongo,
   E a bella de Paraty
   Vos faz dansar o Sorongo.

10 Não sei, mas queixam-se todos
     Da vossa lingua ferina;
     Por isso amargos momentos
     Cruel sorte vos destina.

11 Sois em extremo inclinado
     A's esquivas caboclinhas,
     Não vos escapam as crioulas,
     Morreis pelas mulatinhas.

12 Que vicios? Pois ha no mundo
     Algum que vós não tenhais?
     Até tendes privilegio
     De invenção para alguns mais.