Ir para o conteúdo

Para ler nas férias/A baroneza de Altas Sebes

Wikisource, a biblioteca livre

A baronesa de Altas Sebes

Belmira era uma rapariga muito modesta e pobre, mas de rara beleza e fina educação. Filha dum pobre cavador empregado na quinta da velha baronesa de Altas Sebes, morrera-lhe a mãe ao nascer. A dôr do pai, que era extremoso pela mulher, foi grande e chegou ao conhecimento da baronesa. Condoida, tomou conta da pequena, criou-a, e, quando chegou a ocasião, mandou-a educar á sua custa. Aos dezóito anos, terminada a instrução que a madrinha resolvera dar-lhe, regressou á casa senhorial da sua protectora e tomou ali, naturalmente, o lugar de filha.

A velha baronesa tinha um filho único, muito extravagante, que lhe tinha dado grandes desgostos. Tendo gasto completamente a sua paciência, resolveu nunca mais querer saber dêle, quando lhe constou que êle casara com uma domadora de leões.

Mais tarde vieram várias pessôas amigas instar com ela para que recebesse os netos. Mas aquela senhora, muito orgulhosa da sua ascendência, não perdoara ao filho ter misturado sangue plebeu á sua velha

Esta página contém uma imagem. É necessário extraí-la e inserir o novo arquivo no lugar deste aviso.  Era linda a casa senhorial...

árvore genealógica e respondeu que os filhos duma domadora de leões não seriam nunca seus netos.

O barão, muito orgulhoso tambêm, nunca mais procurou sua velha mãe, que, esquecendo-se dêle a pouco e pouco, acabou quasi por se persuadir de que o filho morrera.

Os seus extremos eram para Belmira, que, muito reconhecida á sua benfeitora, nem por isso deixava de sofrer.

A baronesa tirara-a do seu meio, mas não pensara sequer por um momento em modificar a situação do pai da sua afilhada.

Belmira estimava o pobre homem que lhe dera o ser e via-o de sol a sol cavar a terra, vergado todo o dia ao trabalho, e carregando ás costas fardos de feno. Presenteara o pai com uma banheira, pedira-lhe para tomar banho todos os dias, mas nem por isso o pobre homem deixava de suar bestialmente e, quando see aproximava dêle, embalsamando o ar com o perfume dos seus vestidos, sentia uma impressão de desgosto da qual se censurava e arrependia, mas que não podia evitar. O feitor e os criados da casa chamavam-lhe «snr.a D. Belmira», mas, quando falavam com o pai dela, diziam: «Ó João do Poço, tu...»

Como era bôa rapariga, Belmira ia duas vezes por semana pôr em ordem a casa de seu pai. A pouco e pouco deu-lhe uma cama e os móveis necessários para a tornar confortável. O pai beijava-a reconhecido, mas os invejosos riam e diziam que a afilhada da baronesa queria tornar o pai fidalgo.

Êle contava á filha tudo que ouvia, como um desabafo. Ela fingia não dar importância e aconselhava o pai a não fazer caso; mas, quando á noite se recolhia ao seu quarto, chorava e afligia-se por se vêr deslocada, tanto no solar como na casa paterna.

Um dia saiu a passear com a madrinha e, na volta, a baronesa quiz apear-se da carruagem. Ela havia muito que não andava pelo seu pé na estrada e sentia um grande desejo, não só de andar, como de se ir sentar um pouco á sombra dos pinheiros no cimo do outeiro vizinho.

― ¿E não lhe fará mal a subida, madrinha?

― Nenhum, visto que tanto a desejo.

― Parece-me o caminho rude e ingreme demais para quem não sai ha tanto tempo.

― Não é; mas ainda que fosse, sinto-me velha e doente, Belmira, tenho pressentimentos de que morrerei cêdo e quero ir ali pela última vez. Foi á sombra daqueles pinheiros que o barão me pediu licença para procurar meu pai e dizer-lhe que queria casar comigo. Já vês que é justo que eu deseje ali tornar ainda uma vez.

Depois dum longo silêncio continuou:

― Já lá vão bons quarenta e cinco anos e parece-me que foi ontem! Então eu era uma rapariga bonita e interessante como tu. Tinha muito mêdo de todos os bicharocos e tremia á vista até dum gafanhoto. Estava sentada naquela pedra grande que daquí vês, quando, sentindo uma rostelhada junto de mim, vejo um lindo lagarto que me fitava com os seus olhinhos pequenos e vivos. Soltei um grande grito e subi para cima da pedra. Acudiu-me o barão que andava á caça das perdizes. E aqui tens como do mêdo dum lagarto saíu um casamento.

Esta página contém uma imagem. É necessário extraí-la e inserir o novo arquivo no lugar deste aviso.  O barão chegou junto dela sem ser pressentido... ― E' o lagarto que a madrinha conserva em álcool?

― E'. Gosto dêle pelo favor que sem intenção me causou, mas detesto todos os outros. Sempre é um animal que se póde comparar ás ervas daninhas.

― ¿Porquê?

― A erva daninha, por mais que se corta, cresce. Se tu cortares a cauda ao lagarto torna a crescer; depois, teem a forma semelhante aos lagartos os camaleões que mudam de côr conforme o tempo e as impressões que recebem.

Belmira sorriu e respondeu:

― Parece-me injustiça tornar o lagarto culpado de culpas que não tem, por uma simples semelhança de fórma.

― Não é tal, por esse modo de julgar... eu seria... Espera... Pára um pouco... Parece que não estou bem.

E antes que Belmira tivesse tempo de lhe fazer a menor observação, caiu-lhe desmaiada nos braços.

Aos gritos da rapariga acudiram o cocheiro e o trintanário. Meteram a baronesa na carruagem, para a qual a levaram com dificuldade devido à sua grande corpolência, e apoiaram-na a Belmira.

O cocheiro subiu apressado para a almofada e fustigou os cavalos.

Quando chegaram ao solar, a baronesa tinha deixado de existir.

Belmira chorava como se tivesse perdido uma extremosa mãe.

Os herdeiros fôram prevenidos pelo telégrafo. E o neto, que contava vinte anos, veio assistir ao entêrro porque o pai, entrevado ha cinco anos, não se erguia da cama ha muitos meses e a mãe, como enfermeira dedicada, não o abandonava um segundo.

O jovem barão Roberto ficou encantado vendo a formosa afilhada de sua avó e, quando o entêrro terminou, pediu-lhe que se conservasse no solar até que seu pai destinasse o que faria da casa.

Belmira escusou-se dizendo que tinha pai e que o seu lugar era junto dêle, visto que a sua protectora morrêra.

Mas o verdadeiro motivo da recusa era a antipatia que tinha áquella gente que tantos desgostos causara á sua bôa madrinha.

O barão mostrou-se muito pesaroso, e, entregando a casa ao feitor, fez as suas despedidas e partiu.

Seus pais receberam-no com muita ternura, mas notaram que êle vinha muito triste e pesaroso.

Não comia, não bebia e quasi não falava.

A mãe começou a inquietar-se com o seu estado e mandou vir um médico que o examinou cuidadosamente, declarando em seguida que êle tinha a melhor saúde do mundo, mas que devia ter tido qualquer desgôsto.

Interrogado por sua mãe, acabou por lhe dizer que gostava muito da afilhada de sua avó e desejava casar com ela.

A mãe, que era duma grande bondade, fez com que o pai cedesse aos desejos do filho, que nessa mesma tarde, alegre e feliz, foi em procura da mulher que já reputava sua noiva.

A poucos passos do solar encontrou o João do Poço vergado sob um feixe de feno. Perguntou-lhe pela filha e êle disse-lhe que devia estar sentada ao fundo da quinta da baronesa, jun todo muro da capela que encerrava o carneiro dos barões de Altas Sebes.

O barão dirigiu-se para ali e chegou junto dela sem ser pressentido.

Chamou-a pelo seu nome e disse-lhe ao que ia.

Ela não se deslumbrou com a situação que lhe era oferecida e respondeu que não pagaria os benefícios que recebera da baronesa casando-lhe com o neto.

Sabia que, se ela vivêsse, não aprovaria nunca semelhante enlace.

Em vão o barão a quiz deslumbrar com as grandezas da vida que lhe preparava; respondia que não iria nunca contra a vontade da sua benfeitora.

Era já tarde para regressar á casa paterna; por isso resolveu o barão pernoitar no solar e partir no dia seguinte.

Entrando em casa de sua velha avó, tudo lhe pareceu triste e sombrio.

Abriu uma janela, acendeu um cigarro e, encostando o cotovelo ao peitoril e o rosto na mão, ficou pensando na alegria com que viera e na tristeza com que ia voltar...

Os minutos pareciam-lhe horas. Para se não aborrecer mandou buscar um candieiro e dirigindo-se ao

Esta página contém uma imagem. É necessário extraí-la e inserir o novo arquivo no lugar deste aviso.  O barão ficou pensando...

quarto que sua avó ocupara propôs-se a examinar os seus papeis. Abriu a secretária e depois a primeira gaveta da esquerda.

Encontrou nela uma colecção de retratos de seu pai, tirados anualmente até á data infeliz em que não voltara ao solar. Depois, cartas dêle; leu-as e leve pena que seu pai tivesse procedido assim. Encontrou também cabelos, cortados quando seu pae era pequeno, e uma caixa em que a mãe conservava os seus dentes.

Abriu outra gaveta, depois outra, e finalmente reparou numa mola oculta sob a terceira gaveta; carregou nela e abriu-se um pequeno escaninho no qual havia apenas um papel tarjado de preto em que se liam estas palavras:

O meu testamento

Não estava lacrado, nem fechado, nem escrito em nenhuma das condições que tornam tais papeis válidos perante a lei. Era uma folha de papel de carta em que se lia o seguinte:

Meu filho

Se quizeres respeitar a minha última vontade, dá o solar e as suas dependências a teu filho Roberto com a condição de casar com a minha afilhada Belmira, que eduquei como uma verdadeira senhora, e foi para mim o que não quizeste nem soubeste ser. Os teus pergaminhos não se podem incomodar com isso, visto que já contas entre as celebridades da tua genealogia uma domadora de leões. Eu podia fazer um testamento legal garantindo o futuro da minha afilhada, mas pareceu-me inútil. Um Altas Sebes, por muito que tenha descido, deve conservar, pelo menos, ainda o respeito pela vontade dos mortos: faço-te justiça e perdoo o teu procedimento.

Tua mãe

Clara de Gondar.


O barão Roberto, louco de júbilo, saltou as escadas a quatro e quatro e, apesar da hora avançada da noite, foi bater á porta do João do Poço.

Êste, estremunhado, não percebia o que lhe dizia o barão, nem os motivos por que devia ir acordar a filha.

Êntão, à luz duma velha candeia de azeite, o barão leu-lhe a carta da avó.

João do Poço desatou a chorar e disse:

― A única consolação que eu tinha da morte da senhora era ter finalmente junto de mim a pequena: agora levam-ma outra vez e fico de novo só!

― Não, não ficas só. Vais morar para o solar, porque o pai de minha mulher é tambêm meu pai e como tal ha de ser tratado e respeitado por todos.

João do Poço foi chamar a filha que por sua vez teve uma grande alegria, pois gostava muito do barão e, se tinha recusado casar com éle, era porque julgava cumprir um dever de gratidão para com a memória da sua velha protectora.

Hoje vivem todos muito felizes, mas o mais feliz de todos é o João do Poço, porque, tendo tido uma vida pesada de trabalhos e amarguras, é um rico senhor que tem um neto formosissimo que são os seus encantos.

Não se tornou soberbo e é bom para os amigos que socorre nas necessidades, apesar de conhecer que lhe têem grande inveja.

Se o censuram por fazer bem a quem diz mal dêle, sorri com bonomia e responde:

― ¡Coitados! é natural que me tenham inveja: a vida dêles é tão diferente da minha! ¡Sou tão feliz!

E continua a valer-lhes generosamente.

São assim todos os grandes corações.

Esta página contém uma imagem. É necessário extraí-la e inserir o novo arquivo no lugar deste aviso.