Para ler nas férias/A viuva do felá
Carlitos, sentado na sua alta cadeira junto da mesa de jantar, dizia a seu irmão Anibal, três vezes mais velho do que êle, que contava apenas sete anos:
— Vê como eu estou crescido! Daqui a pouco ha ser preciso comprar-me outra cadeira.
— Não vale a pena. Podes começar a servir-te das nossas.
— Não gosto. Prefiro ser dono da minha cadeira.
— Ora, sendo tu tão zeloso das tuas cousas, ¿porque motivo mexes nos meus livros? Julgas que me é indiferente isso? Assim como queres a cadeira só para ti, tambêm eu quero que os livros sejam só meus.
— Quando eu fôr grande e tiver livros, não mexo nos teus.
― ¿Então, daqui até lá, entendes que heide suportar que me estragues tudo?
― Eu não estrago. E' só para vêr os bonecos e olha que volto as fôlhas com todo o cuidado.
Efectivamente Carlitos voltava as folhas lentamente e tomando todas as precisas precauções para não estragar o volume que tinha aberto sobre a mesa diante de êle.
― Olha, volveu conciliador, chamando a atenção do irmão para o livro, ¿quem é êste homem?
― E' um tuaregue.
― ¿Que são tuaregues?
― São homens que habitam os oásis do deserto do Saará, na A'frica.
― ¿E que bicho é êste que êle monta?
― Um camelo. ¿Não o viste no Jardim Zoológico?
― Não.
―― Pois lá ha um bem grande.
― ¿Levas-me a vê-lo?
― Isso... qualquer dia.
― ¡Este teu livro é muito bonito! Gostava de o ter.
― Quando souberes bem lêr, faço-te presente dêle.
― Tem bonecos muito lindos, mas tem alguns que eu não percebo o que são.
― É natural.
― Êste por exemplo. ¿Que vem a sêr isto?
Esta página contém uma imagem. É necessário extraí-la e inserir o novo arquivo no lugar deste aviso. E' um tuaregue ― Isto são as grandes Pirâmides do Egipto e a Esfinge.
― Fico na mesma. Não sei o que vem a ser isso.
― Os antigos reis do Egipto faziam construir assim os seus túmulos. Estas tres pirâmides são admiráveis pelo seu tamanho. A maior tinha 144 metros de altura e, ainda hoje, é um dos mais altos monumentos do mundo. Tem 137 metros!
― ¿E a Esfinge?
― Era um rochedo de 20 metros de altura representando um leão com colo e cabeça de mulher. Está em parte enterrado na areia. Entre as suas patas abria-se outrora a porta dum templo.
― Devia ser magnífico. O' Anibal, quem lê estes livros de viagens pode fingir que viu tudo, ¿pois não pode?
Anibal sorriu e respondeu:
― Poder pode, mas é logo apanhado, porque a verdade anda constantemente á caça da mentira e desmascara-a a todo o momento.
― ¿Como é isso?
― Eu te conto.
E Anibal, sentando-se em frente do irmão, começou assim:
― Um antigo felá[2] do Egipto era muito mentiroso: nunca falava verdade e enganava todos. Um dia Ramsés II recebeu queixas violentas contra êle e, tendo verificado que eram fundadas, mandou-o matar. A mulher dêle, que teve um grande desgôsto de o perder, ficou com um grande horror á mentira por ela ter merecido tão tremendo castigo e, com receio de ter a mesma sorte que o marido, deu, não só em falar sempre verdade, como em perseguir os mentirosos. Mas, com tanta fúria caiu no excesso de o fazer, que causou grandes desastres em toda a região, porque todos gostam que lhes falem verdade, mas raros são os que a empregam sempre quando ela pode lesar as suas conveniências pessoais. De novo se alarmou o povo e o rei teve de escutar novas murmurações. Castigar uma criatura por falar verdade pareceu ao rei uma cousa iníqua: consultou os seus conselheiros que recearam manifestar a sua opinião. Todos, no fundo, aborreciam a defensora da verdade porque a temiam, ¿mas condena-la que efeito faria ao rei?
«Foram pois unânimes na opinião de que se devia consultar o oráculo.
E o oraculo respondeu:
― «Se o marido foi condenado á morte por mentir, seja ela condenada a viver eternamente por falar verdade e perseguir constantemente a mentira.
«E aqui está como, desde então, a Verdade persegue a Mentira e nunca se cansa disso.»
Carlitos olhou espantado para o irmão e respondeu:
― Isso não é, não pode ser verdade. Um rei não pode condenar ninguêm a viver, porque a vida não está sujeita á vontade dêle: pode tira-la, mas não da-la. Isso só Deus.
Esta página contém uma imagem. É necessário extraí-la e inserir o novo arquivo no lugar deste aviso. ― Isso são as Pirâmides do Egipto e a Esfinge E Carlitos batia alegremente as mãos, contente por julgar que embaraçava o seu irmão.
Aníbal sorriu e volveu-lhe:
― Isto é uma lenda. O corpo da mulher do felá dorme, ha muito, fechado no seu túmulo. Dizem até que era uma das mais formosas múmias do seu tempo. Mas o seu espirito continua a perseguir a mentira, e a prova tu mesmo acabas de a dar não acreditando na história.
E, rindo, beijou o irmão e dirigiu-se para a porta.
― Anibal! Aníbal! gritou Carlitos. ¿O que é uma múmia?
Aníbal parou e respondeu-lhe:
― É um corpo tornado incorruptível por injecções de várias essências. Depois de sêco é apertado em ligaduras que lhe dão uma aparência curiosa, como podes vêr num dêsses bonecos que ai tens. Na tampa dos caixões que as encerravam era costume pintar um rosto semelhante ao da pessôa morta.
Aníbal saíu e Carlitos ficou pasmado diante da estampa colorida que representava as múmias.
Ferido subitamente duma idea, foi ao quarto dos bonecos e, sentando-se no chão, rasgou o seu lenço em tiras; depois, pegou numa boneca, que a mãe lhe dera vestida de rapaz, e procurou transforma-la em múmia. Com as tintas de aguarela tentou imitar as várias pinturas da estampa e, sem querer, sujou de tinta o livro do irmão, quando estudava um dos hieroglifos que lhe era mais dificil imitar. Muito triste pelo desastre, não sabia se o devia esconder se confessar.
Quando o jantar reuniu a familia toda á mesa, a mãe de Carlitos estranhou-lhe o silêncio.
― ¿Estás doente, meu filho?
― Não, minha mãe, estou a pensar numa cousa.
― Em quê?
― Se o espírito da mulher do felá terá contado alguma cousa ao Anibal.
― ¿Então parece-te que êle tem alguma cousa a contar-me?
Os pais olhavam-se sem perceber.
Carlitos disse:
― Fiz uma múmia.
Anibal riu e contou a seus pais a conversa que tinham tido de manhã.
Quando se ergueram da mesa, Carlitos correu a buscar a múmia, que estava realmente bem imitada.
Pegando nela, Aníbal examinou as mãos do Carlitos e viu que, junto das unhas, estavam sujas de tinta. Então, ferido dum pressentimento desagrádavel exclamou:
― ¿Tu sujaste-me o livro de tinta?
Involuntàriamente Carlitos respondeu:
― Não, não sujei.
― ¿Para que mentes? perguntou-lhe Anibal, sem se zangar. Vai busca-lo. Quero vêr o estado em que mo puseste.
Carlitos foi buscar o livro e entregou-o ao irmão sem se atrever a olhar para êle.
Anibal ficou consternado vendo o livro sujo, mas não ralhou com o irmãozinho porque era muito amigo dêle. Esta página contém uma imagem. É necessário extraí-la e inserir o novo arquivo no lugar deste aviso. ... uma das mais formosas múmias do seu tempo. Carlitos saltou-lhe ao pescoço. Percebendo que êle estava cheio de desgosto, beijou-o muito e perguntou-lhe baixinho:
― ¿Foi o espírito da viuva do felá que to disse?
A pergunta foi feita com tanta sinceridade, que Aníbal, sorrindo apesar da contrariedade que sentia, respondeu-lhe:
― ¿Então quem havia de ser?
Carlitos acreditou-o piamente. Só depois dos doze anos é que começou a duvidar de que a viuva do felá influísse no descobrimento da verdade.
É assim que, muitas vezes, se criam superstições que acompanham as pessoas numa grande parte da vida!
Crer em lendas é uma das mais humanas e mais bem rematadas tolices.
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