Para ler nas férias/Adalberto
Era ainda no tempo em que as lições se aprendiam de cór.
Adalberto era muito bom rapazinho, muito esperto, inteligente mesmo, mas não tinha memória. Esforçava-se em vão por reter as lições e gastava muito tempo estudando; quando chegava porêm a ocasião de mostrar o que sabia, todos julgavam que êle não pegara no livro.
O mestre escreveu para casa fazendo queixa ao pai, e o Dr. Lima, pai de Adalberto, chamou-o ao seu gabinete e repreendeu-o.
O pequeno, com os olhos fitos no chão e os beiços trémulos, prestes a desatar a chorar, ouvia em silêncio sem se atrever a responder cousa alguma.
Finalmente o pai disse-lhe:
― Retire-se e não me apareça, emquanto não souber a lição de geografia na ponta da lingua.
O pequerrucho saíu dali e, mal a porta se fechou sôbre êle, rompeu em impetuoso chôro.
Sua mãe correu a saber o que assim o afligia.
Com a voz entrecortada pelos soluços, Adalberto respondeu:
― O pai ralhou-me por eu não saber a lição. Eu Esta página contém uma imagem. É necessário extraí-la e inserir o novo arquivo no lugar deste aviso. ...emquanto se lavava..
estudo e sei; mas no dia seguinte já me não lembro de nada.
D. Petronila enxugou as lágrimas do filho e perguntou:
― ¿A lição é muito grande?
― Não é. O professor já ma passou pequena de propósito.
― Vai buscar o livro e deixa vêr se eu consigo ensinar-ta.
Adalberto correu a buscar o aborrecido livro e, abrindo-o onde estava um lindo postal, leu muito bem:
«O mundo divide-se em cinco partes: a Europa, a Ásia e a África, que formam o Antigo Continente: a América, que é o Novo Continente, e a Oceania, Esta página contém uma imagem. É necessário extraí-la e inserir o novo arquivo no lugar deste aviso. O pai mandou-o lêr... que se compõe dum número consideravel de ilhas espalhadas no Grande Oceano de que tira o nome.
― O quê? ¿E' só isto?
― Só isto.
― ¿Então tu não consegues fixar tão pouca cousa? E' possivel ?!
― É, mãezinha.
— Ora vamos a vêr se eu posso meter-te a liçãona cabeça. ¿Quantos dedos tens tu em cada mão?
― Cinco.
― ¿E quantas partes tem o mundo?
― Cinco.
― ¿De quantas partes se compõe o Antigo Continente?
Adalberto ficou calado.
― ¿Quantos somos nós cá em casa?
― Quatro, com a criada.
― Eu não falava da criada; falava da familia.
— Somos três.
— ¿E quantas partes tem o Antigo Continente?
― Três.
― Dize lá quais são.
― Europa, Ásia e... e...
― ¿De onde veem os pretos?
― Da África.
― Bem. ¿O Novo Continente é composto de...?
― Esqueceu-me.
― Vê se te lembras.
― Não acho.
― O tango argentino, que está tanto em moda, de que origem vem?
― Da Argentina.
D. Petronila desatou a rir e perguntou:
― ¿E onde fica a Argentina?
― Na Á....
― Começa por A, mas não aberto. Tu perguntaste ao tio Maurício...
O pequeno Adalberto esfregava a testa.
A mãe, como visse que êle não achava, perguntou-lhe:
― ¿Quem inventou o fonógrafo?
― Foi Edison.
― ¿E' um inglês?
― Não. E' americano.
― ¿Como se chamará o Novo Continente? Esta página contém uma imagem. É necessário extraí-la e inserir o novo arquivo no lugar deste aviso. ...viu o prestigiditador fazer cousas..
Muito risonho, Adalberto respondeu:
— Já sei, já sei. E' a América.
— Já abaixaste quatro dedos: falta o quinto.
Adalberto olhava em volta, muito comprometido. A mãe tornou-lhe:
— ¿Que livro é esse que está sobre a mesa?
— Os Mistérios do Oceano.
— ¿Como se chama a quinta parte do mundo?
― A Oceania.
― ¿Porquê?
Pela primeira vez Adalberto respondeu sem hesitar:
― Porque se compõe de um número consideravel de ilhas espalhadas no Grande Oceano; daí o seu nome.
― Muito bem, aplaudiu a snr.a D. Petronila. Vamos outra vez repetir a lição.
Seis vezes se reproduziu a mesma scena: por fim Adalberto sabia a lição na ponta da lingua.
No dia seguinte de manhã, enquanto se lavava, Adalberto repetia a lição e via, com grande prazer, que lhe não tinha esquecido. Almoçou e, antes de saír para o colégio, foi bater timidamente á porta do escritório de seu pai e teve um sorriso de satisfação vendo que sua mãe estava ali sentada, na evidente intenção de assistir á entrevista que êle tanto receava, apesar de ter a certeza de que, desta vez, sabia bem a lição.
O pai mandou-o abrir o livro e lêr um trecho qualquer, para o pôr á vontade, porque percebeu que êle estava ainda comovido pelos ralhos da véspera; por fim D. Petronila, depois de o vêr mais tranquilo, perguntou-lhe a lição que êle disse muito bem.
O pai, satisfeito, disse-lhe:
— Se durante oito dias souberes bem a lição, irás ao Coliseu vêr o prestidigitador que chegou ontem.
O pequeno Adalberto durante quatro dias causou o espanto do professor, que tinha chegado a imagina-lo tolo, e que, vendo como êle dava óptima conta das lições, resolveu chama-lo e perguntar-lhe como é que, dum momento para o outro, dum cábula se fizera um bom estudante.
Adalberto contou-lhe que sua mãe, vendo que êle não tinha memória, lhe ensinára a fazer mnemómicas e que por esse processo conseguira fixar as lições.
― Parece um disparate, mas não é, sr. Sá, dizia êle ao mestre admirado. Quando outro dia explicou o que era peninsula, eu, para me não esquecer, disse comigo: península é quasi uma ilha e, se não é ilha, é porque lhe falta o quasi; e, como nessa tarde tinha estado na praia, lembrei-me de que as pranchas, que se metem á água para os banhistas saltarem, estão rodeadas de água por todos os lados, menos por um: é o quasi. Desde então, nunca mais esqueci que a peninsula está rodeada de água por todos os lados menos por um, que é por onde se liga ao continente.
― Está bem, disse sorrindo o professor. Desejo que esse modo de estudar te continue a dar resultado. Vai-te sentar.
No fim dos oito dias o pai de Adalberto cumpria a promessa de o levar ao Coliseu, onde êle, radiante de júbilo, viu o prestidigitador fazer mil cousas maravilhosas.
Desde então, Adalberto supria pela habilidade a falta de memória e nunca mais ninguêm notou que êle não sabia. Orgulhoso do seu esforço, ocultava-o e tinha mais merecimento do que qualquer outro em saber a lição, pelos grandes esforços que fazia para a fixar. Á fôrça de usar a memória acabou por a desenvolver e quanto mais estuda menos lhe custa.
D. Petronila, muito contente com a sua invenção, quando alguêm se lhe queixa de ter pouca aptidão para qualquer cousa, receita-lhe:
― Bôa vontade.
E comenta:
― Supre tudo, até a falta de memória.
Tem razão.
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