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Para ler nas férias/Dignidade dum pobre

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DIGNIDADE DUM POBRE

O tio Adelino Verde andava profundamente pensativo. Não comia, quasi não falava, e a custo mesmo se decidia a trabalhar. Em vão a mulher e a cunhada lhe faziam perguntas; não obtinham senão esta resposta:

― Não é da vossa conta. Deixem-me em paz.

Fôra o caso que um seu antigo companheiro de escola, mandado para o Brasil pelo pai quando tinha quinze anos, voltara riquíssimo, comprara propriedades, e, considerado por todos na terra como um grande senhor, já se dizia que ia ser feito visconde; quando êle fôra ao seu encontro de braços abertos para o estreitar nêles com verdadeira alegria de coração, tinha sido recebido friamente. O brasileiro não lhe oferecêra uma cadeira para se sentar e, sem o tratar por tu, como de antes, fingira não se recordar do seu nome senão a custo, e mostrara-lhe claramente que não tinha desejos de reatar relações.

Ferido e umilhado vivamente no seu real afecto e sinceridade do coração, o tio Adelino Vêrde retirou-se com as lágrimas nos olhos e resmungando por entre dentes:

― ¡Que mundo êste! Fui talvez eu o único amigo que o não esqueci, o que mais sentiu a sua partida, e o único de que êle se não lembra... de que finge que se não lembra, porque se envergonha da minha ignorância e pobreza! Em casa a mulher perguntou- lhe com curiosidade:

― ¿Então como te recebeu o Ermenigildo?

― Bem, muito bem...

― ¡Mas não te demoraste lá!

― ¿Que queres, mulher? não me sentia á vontade. Está lá a cumprimenta-lo toda a fidalgaria cá da terra...

― Pudera não!... Ele vem podre de rico, comentou a cunhada.

Pretestando ter que fazer, o tio Adelino Verde afastou-se para pôr termo ás perguntas da mulher e da cunhada. Não lhe pesara nunca viver pobre, vergado de sol a sol sob o pêso da enxada. A sua vida fôra até então alegremente risonha. Mas, neste momento, o desdêm do melhor amigo da sua infância tornava-o inconsolavel.

― ¡Que me importa a mim com o seu dinheiro! Eu nem pensava que êle o tinha! Guarde-o e não seja soberbo... Fale á gente.

Por sua parte, Ermenigildo, quando as notabilidades da terra se retiraram, pensou em Adelino Verde, na boa amizade que em tempo os ligara, e envergonhou-se Esta página contém uma imagem. É necessário extraí-la e inserir o novo arquivo no lugar deste aviso.  O brasileiro não lhe oferecera uma cadeira... de não ter sabido ser superior a preconceitos mesquinhos, recebendo-o festivamente como ao mais querido dos seus antigos companheiros. Agora ¿que fazer? O melhor era ser coerente com o procedimento que espontaneamente tivera. Demais, o Adelino não poderia estender a mão ás pessoas das suas actuais relações. Ninguêm lha apertaria.

― Contudo, pensava êle, talvez se não encontrasse em toda a aldeia um caracter mais digno.

Pouco contente consigo, resolveu fazer o possivel para esquecer tão desagradável incidente. Mas acontece, geralmente, quando alguêm se porta mal, que a sua consciência o censura e, quanto mais deseja esquecer, mais se lembra e sente pena e remorsos do acto que praticou. Depois, tudo parece estar combinado para avivar na memória o que o incomoda!

A' noite, ao deitar-se, viu diante dos olhos o último serão que passara na terra antes de ir para o Brasil. O Adelino fizera-lhe companhia, e no dia seguinte, ao ir com êle até á diligência que o havia de conduzir á estação, o pobre rapaz chorava ao estreita-lo nos braços, como se fosse dum irmão que se separasse. A pena da maneira por que o tratara aumentou. Ele não era mau, mas parecia-o. Estava vivamente arrependido, mas, por um resto de amor próprio, não se atrevia a demonstra-lo. No dia seguinte tinha um mau aspecto. O pai perguntou-lhe:

― ¿Estranhaste a cama?

― Creio que sim. Passei quasi toda a noite sem dormir.

― Pois olha que te dei o melhor leito que ha em casa.

― Isso vi eu. Mas atribuo isto ao extremo cansaço- da jornada.

Esta página contém uma imagem. É necessário extraí-la e inserir o novo arquivo no lugar deste aviso.  A' noite, ao deitar-se...

― ¡Estás um fidalgo em tudo! ¡Quem me havia de dizer que um filho meu se tornaria tão delicado!...O que faz o dinheiro!

Ermenigildo sorriu contrafeito.

Foram almoçar e êle procurou mostrar-se jovial e animado. Mas o pai, apesar de ser um rude camponês, era esperto e não se deixou enganar pelas aparências. Terminada a refeição, voltou-se para o filho e disse-lhe:

― ¿Queres que eu te diga o que tens?

Ermenigildo olhou para o pai interrogativamente.

O velho continuou:

― Estás mal contigo pelo modo por que trataste ontem o Adelino. Se queres que seja franco, tambêm te direi que a tua conduta me pareceu mal.

Ermenigildo baixou a cabeça corando e o pai continuou:

― Ora se eu estivesse no teu caso, ia-me a casa dêle, dava-lhe um bom abraço, e pedia-lhe desculpa.

― Isso custa-me, volveu indeciso o Ermenigildo:é reconhecer que andei mal.

― E então? Não te acusa disso a consciência?

― Pois sim, mas... Pensarei no meio de remediar o caso.

― Faze o que quizeres; mas o Adelino é um homem digno ás direitas. Deve estar profundamente maguado com a maneira por que o recebeste...

Entrando no quarto que o pai lhe destinara, Ermenigildo meteu, por um movimento naturalmente inconsciente, a mão ao bôlso, e, tirando uma pequena chave, foi abrir a mala. Tirou dela um cofre que continha dinheiro em oiro e começou a contar libras.

Fez vários montinhos de dez e, pegando em dez dêles, fez um embrulho muito bem feitinho e escreveu-lhe

Esta página contém uma imagem. É necessário extraí-la e inserir o novo arquivo no lugar deste aviso.  ... meteu a mão ao bolso....

por fóra: «Ao seu amigo de infância, como prova de amizade, oferece Ermenigildo Marques.» Depois, meteu-o numa caixa e, chamando um rapazito que costumava guardar os porcos, mandou-o levar aquilo a casa do Vêrde, pedindo-lhe um sinal em como ficara entregue.

Volvidos dez minutos, o rapazito voltou trazendo a caixa e um bilhete que dizia assim:

«Ermenigildo; as tuas cem libras não podem ter entrada em minha casa. Nem mas devias mandar porque não deve ter bolsa lembrada quem tem um coração esquecido. Não ha de faltar quem te peça dinheiro: reparte-as pois por os mais pobres e mais necessitados da terra. A mim chega-me o meu trabalho para viver e consolam-me dos desgostos as amizades sinceras que ainda possuo. Desejo que sejas feliz.

Adelino Vêrde.

Espantado, o Ermenigildo voltava o papel entre as mãos sem saber que decisão tomar. Por fim foi ter com o pai que, sentado no escano ― era de inverno ― se aquecia á lareira. Contou-lhe o que fizera e a resposta do Adelino, terminando por dizer:

― E' um orgulhoso. Não quero saber mais dêle.

O velho tornou-lhe:

Em todo o caso, bem menos do que tu. Julgas que o dinheiro serve para tudo e de tudo, e êle prova-te que ha alguma cousa superior ao dinheiro: a dignidade dum homem de bem, que se não paga com uma mão cheia de oiro nem com toda a tua fortuna.

― Concordo. ¿Que me aconselha para ficar a bem com a minha consciência e merecer a sua aprovação, meu pai ?

Esta página contém uma imagem. É necessário extraí-la e inserir o novo arquivo no lugar deste aviso.  ... corria volta e meia á janela...

― Que vás pessoalmente procurar o Adelino, lhe peças perdão, e lhe digas que o esperamos a êle e á familia para jantar. Se o administrador e o presidente da Câmara se não quizerem sentar com êle à mesa,que se vão embora. Esses não te conheciam se voltasses pobre.

Em casa do Vêrde todos estavam inquietos. Era a hora do jantar e Adelino não aparecia. A mulher, seguida da irmã, corria volta e meia á janela e voltava para dentro pesarosa de o não vêr chegar, dizendo a Gertrudes:

― Eu não sei o que me diz o coração! O meu homem anda triste, acabrunhado: traz no pensamento qualquer cousa que o anda a moer e não desabafa. ¿Onde terá êle ido que são estas horas e não aparece?

A outra tentava socega-la, mas no fundo estava tambêm muito inquieta. Estimava o cunhado e sabia como êle era pontual. Nunca, durante os dôze anos últimos, acontecera semelhante cousa.

O Adelino Vêrde regressava do campo para jantar, quando encontrou o Ermenigildo que ia a sua casa. Vendo que êle se lhe dirigia a pedir desculpa, todo o seu ressentimento cafu por terra. Apertou-o nos braços e esqueceu a ofensa recebida.

A' tarde, quando o jantar os reuniu em casa do Ermenigildo, a alegria era franca. Fizeram-se saúdes e o presidente da Câmara e o administrador do concelho apertaram a mão ao Adelino, quando Ermenigildo, sem confessar a sua fraqueza, contou que êle recusara as cem libras, que lhe tinha oferecido, em favôr dos mais pobres da aldeia.

Antes de se retirar, Adelino teve uma longa conversa com o seu rico amigo e entraram em combinações que, sendo de grande vantagem mútua, não umilhavam ninguêm. Adelino passou a ser feitor do Ermenigildo e êste viu as suas propriedades prosperarem sob a direcção inteligente e cheia de interesse do

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seu amigo, que se ufanava da confiança nêle depositada.

No jantar que todos os anos os reúnia á mesa festejando a volta á pátria de Ermenigildo Marques, êle ía pessoalmente á adega buscar uma garrafa do seu melhor vinho e a primeira saúde que fazia era ao seu feitor.

O pai aplaudia-o e, quando a sós com êle, não podia furtar-se a dizer-lhe.

― ¡Olha se com os teus mal entendidos preconceitos não tens feito as pazes com o Adelino! Estavas farto de ser roubado. Porque, sem entenderes nada de agricultura, estavas na mão dos caseiros e eu de nada te podia valer, velho e doente como estou.

― Não seria tanto assim.

― ¡Qual não era! Sabes muito de assucar e cana de assucar, mas cá do amanho das terras não entendes cousa alguma.

― Olhe, meu pai, o melhor que eu ainda ganhei em me pôr de bem com o Adelino foi a satisfação da minha consciência. Não ha nada que a pague.

― Tambem digo, concordou o velho.

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