Para ler nas férias/Noite de sobresalto
Enquanto a família toda
Vai receber o bébé,
Manuel segue atrás da mãe
E, pondo pé ante pé,
Consegue roubar-lhe a chave
E fugir com prontidão,
Pensando convencer todos
De que houve em casa um ladrão.
Tendo lido o Sherlok Holmes,
Quis o polícia imitar,
Mas preparando o scenário
Onde havia de brilhar.
Entrou no quarto da cama,
Pôs tudo num reboliço
E, arrombando a dispensa,
Levou o vinho e chouriço.
― Se tiro bolos, manteiga,
Julgam logo que fui eu.
Tirando do que não gosto
Dirão: ¿quem foi o judeu?
E, por muito que procurem,
Ninguém me ha de suspeitar.
¡Como eu me vou divertir
Fazendo um roubo a brincar!
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E pondo pé ante pé
Depois serviu-se das chaves
E, pegando no dinheiro,
Foi 'scondê-lo no jardim
Junto dum alto pinheiro.
Terminada esta tarefa,
Gritou: ―¡Acudam, ladrões!
Com toda a força que pode
Imprimir aos seus pulmões.
Correu o guarda nocturno,
Acudiram os visinhos,
Enquanto todos em casa
Tremiam pelos cantinhos
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Correu o guarda nocturno...
Sem se atreverem a vir
Saber o que se passava.
Entretanto, o garotaço
Assim as cousas contava:
«Quando entrei no quarto, vi
«Um homem que ia a fugir:
«Inda tentei agarra-lo:
«Não o pude conseguir.
«Grito, grito, ninguém me ouve.
«Começava a enrouquecer
«Quando chegaram, mas tarde,
«P'ra me virem socorrer.
¡Que noite de sobresalto!
Ninguêm conseguiu dormir.
Dona Pulquéria, assustada,
Vê mil fantasmas surgir
Constantemente ao pé dela.
A criada, que é medrosa,
Entra no quarto do amo
Numa figura espantosa:
Leva a saia na cabeça,
A palmatória na mão,
E murmura apavorada:
― Eu sinto gente, patrão!
Dona Aldonça resolveu
Dar tudo, em vida, á sobrinha,
Pois ninguem a roubará
Quando ela fôr pobrezinha.
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Que noite de sobresalto!
Manuel ocultara as chaves
No colete do criado,
Que veio servir o almoço
No trajo mais apurado.
Dona Pulquéria viu logo
A chave, e, de indignação,
Pôs-se de pé e bradou:
― Vejam: foi êle o ladrão!
O pobre homem, assustado,
Tira a chave d'algibeira
Dizendo: ―'stá aqui... 'stá aqui...
Mas não sei por que maneira.
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― Vejam: foi êle o ladrão!
Vai sabê-lo num momento
Quando chegar á prisão.
Eu nunca darei desculpa
A tão feia e negra acção.
Manuel então afirmou:
― Não foi êle, minha mãe.
Eu vi fugir o ladrão
E conheço-o muito bem.
― ¿Mas que quer dizer a chave
No bôlso do Elesbão?
― Foi para que, vendo-a lá,
Julguem que é êle o ladrão.
Dona Aldonça confessou
Que tivera um susto tal
Que receara morrer
Sem dispôr do cabedal.
Fez doação á sobrinha,
Que muito grata ficou,
Pois não sabia o motivo
Que a tal acção a levou.
Com a cabeça entre as mãos
Pensa o pai no seu dinheiro:
¿Como ha de pagar a casa?
¿A conta ao talho? ¿ ao tendeiro?
Então Manuel, levantando-se,
Resolveu tudo alegrar.
Foi ao jardim e voltou
Trazendo o que ia buscar.
Ao vêr o dinheiro, o pai
Teve tal satisfação,
Que começou a conta-lo
Sem indagar do ladrão.
Pulquéria, vendo o chouriço
E o vinho voltar ao lar,
Abraçou-se á tia Aldonça
Que desatou a chorar.
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Fez doação á sobrinha
Serenada a comoção,
Todos quizeram ouvir
Como é que as cousas voltaram.
― Êle as veiu restituir,
Arrependido do roubo,
Na intenção de se emendar.
Perdoei. ― Fizeste bem.
― ¿Não o querem castigar?
― Não, por estar arrependido.
Então Manuel, ajoelhando
Afirmou em tom sincero:
― Fazem-me bem perdoando.
«Fui ladrão por brincadeira,
«Mas, vendo tanta aflição,
«Resolvi que nunca mais
«Brincaria a ser ladrão.
O pai perdoou, dizendo:
― Nós devemos confessar:
Suplanta a dôr de perder
O grande prazer de achar.
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