Para ler nas férias/O dicionário
― ¡Não me perguntes nada! gritava furioso Manuel Chacim á sobrinha. Eu não quiz estudar para não me aborrecer, e tu estás constantemente a perguntar-me tudo. ¡Não sei! não sei! não sei! Deixa-me em paz.
Etelvina afastava-se lacrimosa e dizia consigo:
―¿Como hei de eu aprender, se ninguém me quer ensinar?
Manuel Chacim não era mau. Era muito ignorante e extremamente presumido e vaidoso. Enfurecia-se por isso sempre que tinha de confessar a sua ignorância. Desta vez, porêm, vendo a sobrinha conter a custo as lágrimas, ficou zangado consigo, porque a estimava muito, e, pegando no chapeu e na bengala, saíu pela porta fora, resmungando:
― Isto não pode continuar assim. E' preciso pôr-lhe um termo.
E, conversando consigo, tomou o caminho da livraria Pereira, na rua Augusta. E dizia:
― Eu sei que ha um livro que diz tudo; mas o nome dêle é que eu não sei.
E, tirando o lenço do bôlso, limpava o rosto encharcado em suor, continuando o seu monólogo:
[[File:Esta página contém uma imagem. É necessário extraí-la e inserir o novo arquivo no lugar deste aviso. ||Desenho a preto e branco de uma menina sentada a uma mesa, com o seu tio sentado ao seu lado, a ajudá-la.]]
Tio e sobrinha
―¡Um homem, quando não sabe as cousas, sempre passa por cada vergonha! ¿Como diabo (se chama o tal livro? Êle é a modos acabado em ário... ¿Será eventário?... breviário?... elucidário?... Sim... parece-me que é isto: elucidário.
Entrando na loja, perguntou:
― ¿Os senhores terão por aqui um elucidário?
Os empregados trocaram um olhar entre si e um dêles indagou:
― O Elucidário de Viterbo?
― Eu não sei de quem êle é, nem me importa... Quero um dêstes livros que explicam o sentido das palavras... um breviário.
― Isso é outro género de livro, respondeu-lhe o empregado, contendo a custo o riso. O que o senhor quer é um dicionário.
― Isso mesmo... E' isso mesmo.
Contente de terem entendido o que êle queria, comprou o dicionário Etimológico, prosódico e ortográfico, de Silva Bastos, pela módica quantia de 1.500 réis e, muito cheio do saber que levava consigo, dirigiu-se para casa e, entrando no seu quarto, fechou a porta por dentro. Depois desembrulhou o livro, e, pondo os óculos no nariż, procurou a palavra demergente
Decididamente o tio de Etelvina não era tôlo. Entendeu. Procurou em seguida a palavra epicédio e tambem percebeu. Abriu a gaveta da sua mesa, meteu nela o dicionário, o papel e o fitilho que o embrulhavam, e, chamando a sobrinha, disse-lhe num tom protector:
― Olha lá, Etelvina, o que é que me perguntaste ha pouco?
― Era o que queria dizer demergente.
Então, empertigando-se na cadeira e com um tom muito doutoral, o sr. Manuel Chacim explicou:
― E' um adjectivo antiquado, que quer dizer inclinado. ¿Percebes?
― Não, senhor, volveu a mêdo a rapariguinha.
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Etelvina
Pegando na faca de cortar papel, colocou-lhe o cabo sobre a mesa e a ponta sobre um livro.
― Isto, disse êle, é que é inclinado. ¿Percebes?
― Percebo, sim, meu tio. ¿E epicédio?
― E' termo derivado do grego. Chamava-se assim a um dos tres discursos, pronunciados nas exéquias de alguma pessôa notavel. O primeiro, que se recitava junto da fogueira, chamava-se nénia; o segundo, que se gravava no túmulo, epitáfio; e o terceiro, que se recitava na cerimónia do enterro, epicédio. Sobre isto, continuou êle cofiando a barba, podia dizer-te muitas mais cousas, mas não quero fatigar a tua imaginação infantil.
No dia imediato, á hora a que Etelvina ia a casa do professor, o tio Chacim não se esqueceu de lhe recomendar.
― Olha que, se o doutor te perguntar quem te explicou as palavras que não sabias, has de dizer-lhe que fui eu.
― Sim, senhor.
E a pequena pensava.
― ¿Quem lhas diria? Naturalmente foi pedir a alguêm que lhas ensinasse.
Deu a lição e o professor não lhe perguntou nada. Mal chegou a casa, o tio Chacim indagou:
― ¿Disseste que fui eu que te ensinei?
― Não tive ocasião.
― Pois é preciso arranja-la, porque é bom que se saiba o trabalho que eu tenho para te dar educação.
Etelvina nessa tarde estudou a lição e, tendo uma dúvida, foi ter com o tio. Êle ouviu-a e respondeu-lhe com bom modo:
― Vai-te embora. Um homem não sabe tudo de repente. Deixa-me pensar, que, em eu discorrendo o que seja, eu te chamarei.
Dez minutos depois Etelvina tinha a informação que desejava.
Isto deu-se tanta vez que a pequena começou a desconfiar de que o tio tinha no quarto qualquer meio de saber as cousas, mas muito bem escondido.
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E quando á tarde se senta á mesa...
Espreitando pelo buraco da fechadura, viu que êle consultava um livro.
Quando foi á lição falou ao mestre no livro do tio e êle disse-lhe que era um dicionário e que, se ela andasse na outra classe, mais adiantada, já o teria visto nas mãos das suas condiscípulas.
Etelvina era muito poupada. Juntava todos os vintêns, que lhe davam, num pequeno mealheiro de barro. No dia seguinte, ao ir para a lição, comprou um dicionário e trouxe-o para casa escondido, animada do desejo de dar lições ao tio.
Presumiu muito de si. Julgou que, sendo tão pequena, lhe bastava ter um livro como o do tio, para entender tudo tambêm.
De outra vez, tendo visto primeiro no dicionário a significação da palavra base, foi depois pergunta-la ao tio e, antes que êle tivesse tempo de lhe responder, disse:
― Ah! já sei: é o fundamento.
Repetiu tanta vez a scena que chegou tambêm o momento de Manuel Chacim desconfiar de onde é que vinha á sobrinha tanta clareza e prontidão de raciocinio.
Passou-lhe uma revista a tudo, quando ela menos esperava, e encontrou o dicionário. Então ralhou e enfureceu-se por ela ter comprado o livro ás escondidas dêle. No fundo, o que mais o arreliava era perder o prazer de ser consultado pela sobrinha, e dfingir que sabia. Ferido duma idea súbita, abriu o dicionário ao acaso e perguntou-lhe:
― ¿Que está aqui escrito?
― Confutavel.
― ¿E o que é confutavel?
― E' uma cousa que se pode confutar.
― ¿E o que é confutar?
― E'... é refutar.
― ¿E refutar?
― Refutar... não... não sei.
O mesmo aconteceria ao tio Manuel Chacim dois meses atrás, quando confundia dicionário com elucidário e breviário; mas agora, que passava a vida a decorar as palavras e a estudar-lhes as significações, respondeu prontamente:
― Refutar é demonstrar, por modo de que não pode haver dúvida, que é falsa a razão ou argumento que outra pessôa sustenta.
Etelvina curvou a cabeça umilhada. Ela, que no seu intimo chamava ignorante ao tio, teve de reconhecer que as pessoas, que já têem vivido, sabem muito de vêr e ouvir, e não é facil a uma criança, que começa a viver, competir com elas embora seja estudiosa.
O tio, contente de vêr que, mesmo sendo velho, o estudo lhe aproveitava, foi indulgente para a pequena ingrata a quem servia de pai e continuou a ter o prazer de lhe explicar o dicionário, porque, dizia êle:
― Quatro olhos vêem melhor do que dois.
Agora, que já não tinha por que fazer mistérios, passava os dias a lêr e, quando a sobrinha ou a irmã o censuravam por nunca lêr outra cousa, êle fechava o volume, punha sôbre êle os óculos, e afirmava com profunda convicção:
― ¡Grande livro! Não quero nem preciso outro:
E' êle que me tem feito conhecer o que vale o estudo. ¡O que eu sabia e o que eu sei!
E, quando á tarde se senta á mesa para jantar, a familia tem de ouvir e aprender os significados das palavras que durante o dia o deliciaram.
Se protestam, ouvem-no exclamar tranquilamente:
― ¡Paciência! Hão-de ser sabichonas, quer queiram, quer não.
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