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Para ler nas férias/O rato de D. Matias

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O rato de D. Matias

D. Matias era um espanhol residente em Lisbôa, havia longos anos, que vivia de ensinar piano ás meninas e senhoras lisboetas. Magro e elegante, cantava umas romanças acompanhando-se ao piano, o que lhe aumentava consideravelmente a clientela, porque, segundo diziam todos, D. Matias cantava com mucho salero. Mas, como não ha bem que sempre dure nem mal que não acabe, veio uma época em que, por fatalidade, as discípulas de D. Matias o deixaram descansar tanto, que o pobre homem começava a andar apreensivo com receio de lhe vir a faltar o ganho necessário para o seu sustento. Então meditou muito e, julgando ter encontrado uma solução, fez inserir em todos os jornais êste anúncio em letras muito grandes:

«O professor Matias Gonzalez tem um meio infalivel de conseguir que as meninas preguiçosas dêem magníficas lições de canto e piano. É o rato.»

Este anúncio trouxe-lhe muitas respostas porque despertou a curiosidade pública.

D. Matias, quando estava sem dinheiro e sem discipulos, sentava-se ao piano e tocava horas e horas, não só para se exercitar, como também para se distrair. Com grande espanto seu, viu um dia que um

Esta página contém uma imagem. É necessário extraí-la e inserir o novo arquivo no lugar deste aviso.  D. Matias levava horas e horas

ratinho, quando êle começava a tocar, deitava a cabeça fóra do buraco e se punha a escuta-lo com atenção. Como êle o não enxotasse, o rato ganhou confiança e a pouco e pouco veio saindo para fóra até se colocar junto da cadeira do professor, escutando-o com muito propósito. Se êle parava de tocar, fugia para o buraco; se recomeçava, vinha de novo ouvir. D. Matias tinha muita vaidade no seu gentil admirador e começou a dar-lhe migalhinhas de queijo e bocadinhos de toucinho frito. O rato, que era muito guloso, afeiçoou-se a quem lhe dava tão boas cousas e acabou por não recolher ao buraco, andando pela casa atrás de D. Matias como se fosse um cãozinho. O espanhol ensinou-o

Esta página contém uma imagem. É necessário extraí-la e inserir o novo arquivo no lugar deste aviso.  A primeira pessoa que respondeu ao anúncio

a dançar, a pôr-se em pé nas patas trazeiras, e a fazer mil habilidades. Como não tinha filhos nem familia, afeiçoou-se ao rato, que era muito meigo e êle tornara muito bem educado, e trazia-o sempre no bolso para qualquer parte que fôsse.

Caindo em necessidade, lembrou-se D. Matias de tirar proveito do seu amiguinho e, indo a casa da primeira pessoa que respondeu ao anúncio, expos-lhe o seguinte: «Quando uma discipula não sabe a lição, não lhe mostro o rato; se ela, pelo contrario, dá bôa conta de si, mando o rato dansar e fazer habilidades. Este meio é infalível porque as crianças acham uma tal

Esta página contém uma imagem. É necessário extraí-la e inserir o novo arquivo no lugar deste aviso.  A discipula de D. Matias lendo o seu proprio elogio

graça ao rato que, só para o verem fazer as suas gracinhas, estudam com muito bôa vontade.»

Dias depois, foi chamado a uma casa onde não havia crianças. A discípula era uma senhora alta e magra, mas com uma grande negação para a música. Tocava muita cousa, mas tudo mal e sem gosto algum; era preciso incutir-lhe gôsto, desenvolver-lhe o sentimento artístico, etc. Era, pelo menos, isso que o marido, um maníaco por música e que não se queria conformar com o desastramento musical da mulher pedia ao professor. É claro que com esta discipula não podia êle empregar o rato. O método que usava era outro. Tocava para ela ouvir, procurando despertar-lhe o interesse que absolutamente lhe faltava. Tocou-lhe a Ave Maria do Otelo, elogiou-lhe primeiro essa obra do grande maestro italiano José Verdi e depois cantou-lhe algumas malagueñas da sua terra, com o ardor e graça que tanto lhe admiravam nas salas. Era tudo inutil. D. Josefina bocejava, detestava o piano e, segundo afirmava, só estudava e dava lições para não deixar de ir no inverno a París. Porque o marido, que declarava a todos que a mulher era uma excelente pianista, dissera-lhe que, se o deixasse ficar por mentiroso, não iria viajar com êle.

D. Matias perdia a paciência. Sabendo por acaso, em conversa, que D. Josefina tinha mêdo de ratos, lembrou-se de empregar o seu amigo para tirar resultado desta discípula renitente.

― Se v. ex.a não toca como deve, disse-lhe êle muito zangado, ponho-lhe um rato na cabeça.

D. Josefina julgou que era gracejo; mas, tendo tocado em alegro uma cousa que devia ser tocada em andante, D. Matias, num impeto de impaciência, meteu rápidamente a mão ao bolso e pôs-lhe o rato na cabeça.

— ¿Que fez? perguntou assustada D. Josefina.

— O que prometi, se não tocasse bem.

A pobre senhora não se atrevia a tocar no rato porque a repugnância que por êle sentia era invencivel mas, pedia pelo amor de Deus a D. Matias que a livrasse daquele martirio. Á lamúria dela acudiu o marido que, sabendo do que se tratava, declarou:

― Optimo! Optimo! Rato com ela, cada vez que não estiver com atenção. Esta página contém uma imagem. É necessário extraí-la e inserir o novo arquivo no lugar deste aviso.  O marido desola-se em vão

Foi tal o terror da pobre senhora que passou a estudar extraordinàriamente e, se nunca foi umagrande pianista, houve pelo menos uma vez em que recebeu uma grande ovação.

Foi assim:

O marido quis que ela tocasse com éxito num concerto de caridade. Mandou escrever a um compositor célebre uma canção que exprimisse bem o mêdo e colocou D. Matias junto dela com o rato na mão. Ensaios e concerto foram um castigo para a pobre senhora, mas ela tocou como devia e nunca ninguém exprimiu melhor o mêdo musicalmente. Ouviu-se chamar insigne pianista. O marido impava de vaidade, mas o que ninguêm soube, nem mesmo ela o disse, foi que o seu triunfo era devido ao rato.

É tão grande a vaidade feminina que, contente com os aplausos recebidos, agradeceu ao marido e a D. Matias... o rato.

Nunça conseguiu tocar mais nada em termos, e o marido desola-se, em vão, por não saber o que ha de substituir o rato de D. Matias.

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