Para ler nas férias/Um banho inesperado
― Venham vêr comer os cisnes,
Grita Firmina aos irmãos.
E, vendo que se não movem,
Faz muita bulha co'as mãos.
Então ambos, lentamente,
Como dois homens pequenos,
Encaminham-se p'ra o tanque.
Os cisnes vogam serenos,
Deslisando majestosos
Com o pescoço arqueado,
Contentes de vêr nas águas
O seu vulto projectado.
Firmina deita-lhes milho
E migalhinhas de pão.
― Não te chegues tanto à borda,
Diz-lhe, prudente, um irmão.
― Vou mirar a minha imagem
Como o cisne mira a sua,
Como agora o sol se mira
E se mira á noite a lua.
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inclinou-se para a frente...)
E sobe á borda do tanque,
Que é pedra escorregadia,
No empenho de contemplar-se
No 'spelho que a reflectia.
Inclinou-se para a frente...
O equilíbrio perdeu
E, soltando um grande grito,
Nas águas desapar'ceu.
Lançam-se ao tanque os irmãos:
Mergulham n'àgua lodosa
E conseguem agarrar
Pelo vestido a teimosa.
Mal se viu dentro de casa,
Em vez de ir falar á mãe,
Correu depressa a despir-se
Antes que a visse ninguêm.
Foi ter com seu velho avô,
Pedindo-lhe com meiguice:
― ¿Deixas-me ir para o teu colo?
― ¿Fizéste alguma tolice?
― Fiz. A mãe não tarda aí.
«Põe-me ao colo ou dá-me a mão,»
O velho pega-lhe e diz:
― ¿E terá muita razão?
― Alguma, avôzinho, alguma.
«Tanto n'água me quiz vêr
«Que, se não fôssem os manos,
«Não me tornavas a ter
«Sentadinha no teu colo.
«Cheguei a casa num pinto.
«Os manos tambem, coitados!
«Tu bem sabes que não minto.
«Foi tudo por culpa minha:
«¿Que lhe hei de agora fazer?
― Nada, filha,... ter juizo
E nunca a lição 'squecer.
Nisto, a voz de dona Berta
Pergunta:― ¿Posso entrar, pai?
― Podes sim, mas a pequena
D'aqui p'ra fóra não vai.
«Acaba de confessar-se.
«Perdoar-lhe é um dever.
«Lembra-te que por um triz
«A não tornámos a ver.
«Eu pago o fato estragado...
«Darei prémios aos rapazes...
«Para me ser agradavel
«Vaes fazer com ela as pazes.
«Convida gente a jantar.
«Á noite haverá função.
«Quero alegrar-me: é bem justo
«Depois de tal aflição.
― ¡Mas, se o meu pai nada soube!...
― Porêm de o ouvir contar
Senti tal dôr de a perder
Que a preciso vêr folgar.
Saíu a mãe amuada,
Mas sem nada responder.
Diz a pequena ao avô:
- E' muito bom não morrer
«Mas ter um avô assim
«É melhor, muito melhor.
«Torna bem o mal que os mais
«Costumam tornar pior.»
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