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Para todos.../no. 219/A Historia do Fantasma Inexperiente

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A HISTORIA DO FANTASMA INEXPERIENTE

 
por H. G. WELLS — (Continuação).
 

E՚ a verdade, senhor. Tentei varias vezes, mas não consigo. Escapou-me qualquer coisa, que ja não posso encontrar. Era realmente transtornante, como vêdes. Olhava-me elle com um ar tão miseravel que por nada no mundo eu seria capaz de conservar o tom autoritario que adoptára. “E՚ exquisito,” disse eu, e, emquanto falava, pareceu-me ouvir alguem que se movia em baixo. “Venha então ao meu quarto, e conte-me isso, disse como decisão, porque, em summa, eu ainda não comprehendo nada”. Tratei de agarral-o pelo braço. Mas, naturalmente, o mesmo seria querer agarrar uma baforada de fumo. Creio que me sahira tambem da memoria o numero do meu quarto. Em todo caso, lembro-me de ter entrado em varios quartos, antes de encontrar as minhas malas... Era uma sorte achar-me eu só n՚esta ala do edificio. “Eis-nos á vontade”, disse. E estirei-me n՚uma poltrona. “Sente-se e conte-me esssa historia. Parece-me, meu caro, que você se collocou n՚uma situação singular”. Respondeu-me que preferia não sentar-se, que lhe agradava mais se isso não me incommodasse, vagar a seu bel prazer pelo quarto. Não vi inconveniente e, dentro em pouco, estavamos entretidos n՚uma longa e séria conversação. Em breve dissiparam-se as névoas do whisky, e eu principiei a compenetrar-me de que estava mettido n՚um caso notavelmente extranho. Alli, deante de mim aquelle fantasma, em tudo conforme á tradição, e silencioso, não se falando na sombra da sua voz, fluctuava por aqui e por alli no quarto recoberto de panno estampado. Atravéz d՚elle eu percebia o brilho dos candelabros de cobre, os reflexos da luz sobre o guarda-fogo de cobre amarello e nos angulos dos quadros presos á parede, e elle me contava a sua vidinha miseravel que havia pouco terminára na terra. Os seus traços nada tinham de especialmente distincta, como já sabem; mas, como era transparente, não podia senão dizer a verdade.

— Hein? — exclamou Wish, endireitando-se de repente na poltrona.

— Que? — perguntou Clayton.

— A sua transparencia... que o obrigava a dizer a verdade... Não vejo muito bem a relação.

— Nem eu, replicou Clayton, com uma impagavel segurança, — mas é assim, posso afiançal-o. Não creio que elle se afastasse da verdade verdadeira nem o comprimento d՚uma unha. Contou-me de que modo morreu... Descèra a um subterraneo, com uma véla, para procurar um escape de gaz. Ao tempo em que foi assim liberto da existencia, elle era, como me declarou, professor n՚um instituto particular de Londres.

— Pobre diabo, — disse eu.

— E՚ o que eu pensava tambem, e quanto mais elle me falava, mais o julgava eu. Passára a vida sem uma finalidade, e assim se encontrava fóra da vida. Falou com amargura dos paes, do mestre-escola, de todos aquelles que com elle haviam lido quaesquer relações.

Demasiado sensivel e nervoso, nunca ninguem o apreciára, nem comprehendèra, assegurou-me. Jamais tivera um amigo verdadeiro no mundo, como não tivera nenhum triumpho, abstivera-se dos divertimentos e dos prazeres, e fracassára em muitos exames. “Ha pessòas que são assim, explicou-me. Cada vez que eu entrava na sala dos exames, perdia a cabeça”.

Era noivo, naturalmente, (d՚uma joven lambem sensivel em excesso), quando o desgraçado escape de gaz pôz fim aos meus amores. “E onde está agora? perguntei: Não está no inferno?” Não foi muito claro n՚este ponto, mas deu-me a impressão de estar situado n՚uma especie de vago estado indeterminado, intermediario, n՚uma reserva especial para as almas muito neutras, e incapazes d՚uma escolha positiva entre o vicio e a virtude. Mas não estou certo de nada.

Era demasiado egoista o fantasma, e indifferente, para fornecer-me uma idéa precisa da especie de logar, da especie de região que se acha no além-tumulo. Em todo caso, parece que elle se ligára com um bando de espiritos do seu genero: fantasmas de jovens fracalhões da cidade, munidos dos mesmos nomes de baptismo. Entre si, deviam frequentemente falar em fazer apparições o exercicios semelhantes. Sim... “fazer apparições”. Pensavam que devia ser cheio de aventuras divertidas, e, comtudo, todos tinham receio d՚isso, e não ousavam arriscar-se. Não foi senão sob as mais fartas investigações e os mais energicos desafios que o meu individuo tivera o topete de experimentar.

— Não é possivel! — disse Wish olhando sempre para as chammas.

— Seja como fôr, as impressões que eu recebi são essas, — continuou Clayton modestamente. — E՚ provavel que eu me encontrasse então n՚um estado pouco favoravel ao discernimento, mas foi sobre este plano que elle se desenhou. Não cessava de fluctuar e de falar com o seu flosinho de voz... Falava, falava da sua lamentavel pessoa, sem dar nunca uma phrase precisa, um facto nitido e evidente. Era mais amigo de minudencias, mais insipido e mais idiota, que se fosse vivo e real. Mas, se elle estivesse vivo, como comprehenderão, eu não o teria tolerado no meu quarto, e a ponta-pés o teria expulso de lá.

— Sim, com certeza, — commentou Evans, — ha pobres mortaes que são assim.

— E é egualmente plausivel que, como os outros, elles tenham fantasmas, — observei.

— O que lhe emprestava algum interesse, é que elle parecia a todo momento prestes a pôr o dedo na difficuldade. A desagradavel aventura em que cahira causára-lhe uma terrivel depressão. Haviam-lhe dito que seria uma adoravel brincadeira; n՚essa esperança é que elle viera, e eis que não conseguira senão ajuntar mais uma derrota á sua lista. Aliás, elle admittia ser um falhado em toda a linha.

 
(Continúa no proximo numero)

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