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Para todos.../no. 221/A Historia do Fantasma Inexperiente

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A HISTORIA DO FANTASMA INEXPERIENTE

 

NATURALMENTE, eu desejava vel-o em acção; mas era tão obstinado como um jumento; e, subitamente, como me sentisse muito cansado, — elle me esgotára, — cedi. “Muito bem, disse, não lhe olho mais”. E voltei-me para o espelho, ácima do toucador, junto ao leito. Poz-se a gesticular com rapidez e eu o seguia com toda a attenção no espelho, para pegar o gesto que elle não pudera achar. Os seus braços e as suas mãos giravam e agitavam-se assim, assim, para traz, para deante; logo, precipitando o jogo, chegou ao ultimo gesto... Fica-se de pé, e estendem-se os braços... E vi-o alli, de pé, n՚esta attitude... Depois, crac, já não estava mais lá... Não, já não estava mais. Voltei-me. Mais ninguem. Eu estava sósinho, com o espirito perturbado, deante das vélas vacillantes. Que se passou? Passára-se mesmo alguma coisa? Ou então eu sonhára?

Foi quando, lançando no silencio uma nota absurda de realidade, o relogio da parede comprehendeu que o momento era proprio para bater uma hora. Unicamente... Pang!... E eu estava tão grave e sobrio como um juiz, pois, da garrafa de champagne e do whisky que bebera, não restava nenhum traço. Sentia-me com uma tranquillidade extraordinaria!

Examinou um instante a cinza do charuto.

— Eis, com toda a exactidão, o que se passou — concluiu.

— Depois d՚isso, deitou-se? perguntou Evans.

— Não havia nada de melhor a fazer. O meu olhar encontrou-se com o de Wich. Tinhamos vontade de zombar, e comtudo sentia-mos, na voz e na attitude de Clayton, algo que nos dominava.

— E os passes? — perguntou Sanderson.

— Penso que poderia reproduzil-os agora.

— Oh! — exclamou Sanderson, tirando um canivete e raspando o cachimbo. — Porque não os reproduz logo? — insinuou fechando o canivele.

— Consinto, e vou principiar, — respondeu Clayton.

— Isso não irá bem, — assegurou Evans.

— E se fór bem? — disse eu.

— Para ser franco, aconselhou Wish, alongando as pernas. — eu preferiría que não se arriscasse n՚isso.

— Porque? — interrogou Evans.

— Seria melhor abster-se, — affirmou Wish.

— Mas elle não guardou os passes em ordem, — observou Sanderson, esforçando-se por metter no cachimbo uma enorme porção de tabaco.

— Apezar de tudo, seria preferivel abster-se, — repetiu Wish.

Discutimos com este cabeçudo, que pretendia que recomeçar os passes era ridicularisar uma coisa séria.

— Mas você não acredita... — disse eu com ar de mofa.

Wich lançou um olhar a Clayton, que contemplava o fogo, parecendo pesar alguma determinação no seu espirito.

— Acredito n՚isso, — disse elle, — até mais do que pela metade.

— Clayton, — repliquei, — você é um mentiroso habil em excesso para nós. Toda a sua historia é excellente. E você empresta á desapparição final... um aspecto verdadeiramente conveniente. Diga-nos, “é um conto para dormir de pé?”

Ergueu-se sem dar attenção ao que eu dizia, e installou-se, fazendo-me frente, no meio do tapete da sala. Por um momento, considerou pensativamente a ponta dos pés, fixou os olhos na parede opposta, com uma expressão preoccupada, depois ergueu lentamente as duas mãos á altura dos olhos, e começou...

Ora, Sanderson é maçon, membro da loja dos Quatro-Reis, que com tamanha competencia se dedica ao estudo e á elucidação de todos os mysterios da Maçonaria passada e presente, não sendo elle, entre os eruditos investigadores d՚esta loja, de maneira nenhuma, o menos consideravel. Seguia os movimentos de Clayton, com uma singular curiosidade nos seus olhos de reflexos avermelhados.

 
(Continúa).

Todas as obras publicadas antes de 1.º de janeiro de 1931, independentemente do país de origem, se encontram em domínio público.


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