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Para todos.../no. 222/A Historia do Fantasma Inexperiente

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A HISTORIA DO FANTASMA INEXPERIENTE

 
por H. G. WELLS — (Conclusão).
 

— A coisa não vaе mal, — concedeu quando o outro terminou. — Você guardou ás mil maravilhas o segredo, mas falla um pormenorzinho.

— Já sei, — respondeu Clayton, — e creio que lhe poderei dizer qual.

— Então?

— Este, — replicou succintamente Clayton, retorcendo e avançando as mãos d՚um modo exquisito.

— Sim.

— Foi este que elle esqueceu, — explicou Clayton. Mas como é que você?...

— Nada comprehendo na quasi totalidade d՚esta historia, e especialmente pelo modo por que você a inventou, — declarou Sanderson, — mas essa série de gestos, eu a conheço. (Reflectiu um momento). E՚ uma série de gestos, — continuou, — que se ligam a um certo ramo da Maçonaria esoterica... Você, provavelmente, os... ou então... (Meditou novamente). Não acho que haja inconveniente em revelar-lhe o gesto exacto. Afinal de contas, se o conhece, muito bem, se não, tanto peior.

— Nada mais sei além do que o pobre diabo me permittiu obeservar n՚aquella noite, — assegurou Clayton.

— Vamos tentar, haja o que houver, opinou Sanderson, collocando o cachimbo na chaminé, com muito cuidado.

Depois, com rapidez, pôz-se a gesticular.

— D՚este geito, não é? — perguntou Clayton imitando-o.

— E՚ assim, effectivamente, — approvou Sanderson, agarrando o cachimbo.

— Ah! agora posso fazer toda a série, em ordem, — disse Clayton.

De pé, proximo ao fogo que morria, sorriu-nos a todos, mas eu pensei surprehender uma certa hesitação no seu sorriso.

— Se principio... — balbuciou.

— No seu logar, eu não principiaria, — interrompeu Wish.

— Bah! que perigo póde haver? — exclamou Evans. A materia é indestructivel. Com certeza não pensam que tolices d՚este genero vão levar Clayton para o mundo das sombras. Ensaie, Clayton! Por mim, não ponho objecção n՚isso; experimente até que os seus braços não aguentem mais.

— Não concordo de modo algum com essa opinião, disse logo Wish, levantando-se e pondo a mão no hombro de Clayton. Você obrigou-me a dar credito á metade d՚essa historia e não faço questão de vel-o executar essa arte.

— E՚ bôa! Vejam! Eis o credulo Wish desnorteando, — disse eu zombando.

— Sim, tenho medo! — respondeu Wish com uma seriedade real e muito bem representada. — Estou persuadido que, indo até o fim d՚essa mimica, desapparecerás.

— Ora! não desapparecerá mais do que eu ou você! — exclamei. — Não ha para os homens senão um unico modo de desapparecer do mundo, e antes d՚isso, Clayton ainda tem trinta annos de vida. Aliás... Que fantasma daria elle,! Acham que?... Interrompeu-me um brusco movimento de Wish. Pòz-se a caminhar entre as cadeiras, e logo, estacando de subito deante da mesa:

— Clayton, você é um imbecil!

Clayton com um ar divertido na physionomia, respondeu-lhe sorrindo:

— Wish tem razão, disse, — e vocês todos erram. Irei até o fim d՚estes passes, e quando o meu ultimo gesto cortar o ar... prompto! este tapete ficará deserto, toda a sala, aqui, representará o papel do mais perfeito assombro, e um senhor de noventa e cinco kilos, despeitavelmente vestido, irá cahir pesadamente no mundo das sombras.

Estou certo d՚isso, e vocês o estarão em breve. Recuso-me a discutir mais largamente. Que a experiencia se faça!

— Não! — gritou Wish, dando um passo para a frente.

Clayton levantou de novo os braços para repetir os passes do fantasma.

N՚este instante, como comprehendem, todos estavamos n՚uma grande tensão de espirito, um tanto perturbados com a attitude de Wish. Tinhamos os olhos fixados em Clayton, — eu, pelo menos, com uma especie de rigidez comprimida, como se da nuca á cintura, o meu corpo estivesse transformado n՚uma barra de aço. No entretanto, com uma gravidade imperturbavel e serena, Clayton abaixava-se, sacudia-se d՚um lado para outro, agitava as mãos e os braços na nossa frente. Quando se approximou do fim, os meus dentes entrechocaram-se. O ultimo gesto, — já o disse? — consistia em extender os braços completamente, atirando a cabeça para traz. Quando afinal chegou a este derradeiro gesto, não ousei nem mesmo respirar: apprehensão ridicula, com certeza, mas todos sabem a impressão que dão estas historias de apparições. Era depois do jantar, n՚uma casa velha, obscura e exquisita. Conseguiria, por acaso?...

Permaneceu assim, com os braços abertos, a cabeça cahida para traz, resoluto e sorridente na claridade da lampada suspensa, durante um instante prodigiosamente longo. Nós ficamos immoveis e presos durante este momento que nos pareceu um seculo. Depois, dos nossos peitos exhalou-se um ruido que era ao mesmo tempo um suspiro de allivio e um “não” tranquillisador, porque visivelmente elle não desapparecia. Tudo aquillo não eram senão tolices! Contára-nos uma historia extravagante, chegando quasi a convencer-nos, e era tudo. Mas n՚este mesmo instante, a physionomia de Clayton transformou-se.

Mudou. Mudou como muda uma casa illuminada quando bruscamente, se apagam todas as suas luzes. Os olhos, de repente, tornaram-se-lhe fixos, o seu sorriso gelou-se nos labios, e elle permanecia de pé. Permanecia de pé, n՚um leve balanço.

Este momento pareceu-nos outro seculo. Depois, as cadeiras dansaram, alguns objectos cahiram ao chão, e nós todos demos um salto. Os seus joelhos dobraram-se, elle cahiu para a frente, e foi Evans que o sustentou nos braços.

Não podiamos acreditar no que viamos. Durante mais de um minuto, nenhum de nós pôde articular uma palavra sensata. Com toda a evidencia, era... e comtudo não ousavamos admittil-o. Sahi da minha estupefacção titubeante, para achar-me de joelhos junto d՚elle. O collete e a camisa lhe tinham sido arrancados, e Sanderson, com a mão, certificava-se se o coração ainda batia...

Este simples facto, imprevisto, arrebatador, monstruoso, podia perfeitamente esperar que nós ficassemos menos emocionados. Já não tratavamos de comprehender. Durante uma hora, alli deixámos o seu cadaver ao comprido, e, desde esse dia, elle ficou como uma sombra negra e assustadora, atravéz da minha memoria. Clayton passára realmente para esse mundo que está lão perto e tão longe do nosso, e para lá fóra pelo unico caminho que os mortaes podem seguir.

Saber, porém, se elle passou por meio das encantações do desgraçado fantasma, ou si foi subitamente fulminado por uma apoplexia no desenrolar d՚uma peça que nos pregasse — como o inquerito nos quiz fazer crer — eis uma questão sobre a qual eu não poderia manifestar-me, um d՚esses enigmas que ficarão impenetraveis emquanto não se tiver encontrado a solução final de todas as coisas.

O que sei d՚uma maneira absolutamente certa, é que no mesmo momento, no mesmo segundo em que terminava os seus passes, elle se transformou, vacillou-se se abateu — deante de nós — morto.

Todas as obras publicadas antes de 1.º de janeiro de 1931, independentemente do país de origem, se encontram em domínio público.


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