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Pau Brasil/10

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LOYDE BRASILEIRO

Canto do regresso a Patria
 

Minha terra tem palmares
Onde gorgeia o mar
Os passarinhos aqui
Não cantam como os de lá

Minha terra tem mais rosas
E quasi que mais amores
Minha terra tem mais ouro
Minha terra tem mais terra

Ouro terra amor e rosas
Eu quero tudo de lá
Não permitta Deus que eu morra
Sem que volte para lá

Não permitta Deus que eu morra
Sem que volte pra São Paulo
Sem que veja a Rua 15
E o progresso de São Paulo

 
Tarde de partida
 

Casas embandeiradas
De janellas

De Lisboa
Terremoto azul
Fixado
Nos nevoeiros historicos
O teu velho verde
Crepita de verdura
E de pharoes
Para o adeus da patria quinhentista
E o accaso dos Brasis

 
Cielo e mare
 

O mar
Canta como um canario
Um compatriota de bôa familia
Empanturra-se de whisky
No bar
Familias tristes
Alguns gigolos sem effeito
Eu jogo
Ella joga
O navio joga

 
O cruzeiro
 

Primeiro pharol de minha terra
Tão alto que parece construido no ceu
Cruz imperfeita
Que marcas o calor das florestas
E os discurssos de 22 camaras de deputados
Silencio sobre o mar do Equador
Perto de Alpha e de Beta
Perdão dos analphabetos que contam casos
Accaso

 
Rochedos Sao Paulo
 

Everest da Atlantida
Vanguarda calcinada do Brasil
Ponto geocentrico eriçado
Contra as escarpas das ondas
Do Amazonas
Poleiro de Gago Coutinho

 
Fernando de Noronha
 

De longe pareces uma cathedral
Gravando a latitude

Terra habitada no mar
Pela minha gente
Entre contrafortes e penedos vulcanicos
Uma ladeira coberta de matto
Indica a colonia lado a lado
Um muro branco de cemiterio
A egreja
Quatro antenas
Levantadas entre a Europa e a America
Um pharol e um cruzeiro

 
Recife
 

Desenvoltura
Attração sinuosa
Da terra pernambucana
Tudo se enlaça
E absorve em ti
Rectilinea
Canna de assucar
Dobrada
Para deixar mais alta
Olinda
Plantada
Sobre uma onda linda

 

Do mar pennambucano
Mas os guindastes
São canhões que ficaram
Em memoria
Da defeza da Patria
Contra os hollandezes
Chaminés
Palmares do caes
Perpendiculares aos hangars
E ás broas negras d’oleo
Baluartes do progresso
Para render
Os velhos fortes
Carcomidos
Pelos institutos historicos
Na paisagem guerreira
Os coqueiros se empennacham
Como guerreiros em festa
Ruas imperiaes
Palmeiras imperiaes
Pontes imperiaes
As tuas moradias
Vestidas de azul e de amarello
Não contradizem
Os prazeres civilizados

Da Rua Nova
Nos teus parallelepipedos
Os melhores do mundo
Os automoveis
Do Novo Mundo
Cortam as pontes ancestraes
Do Capiberibe

Desenvoltura
Concreto sinuoso
Que liga o arranha-ceu
A’ bençam das tuas egrejas
Velhas
De abençoar
A gente corajosa
De Pernambuco

 
Escala
 

Sob um solzinho progressista
Ha gente parada no caes
Vendo um guindaste
Dar tiro no ceu

 
Versos bahianos
 

Tua orla Bahia
No beneficio destas aguas profundas
E o matto encrespado do Brasil

Uma jangada leva os teus homens morenos
De chapeu de palha
Pelos campos de batalha
Da Renascença

Este mesmo mar azul
Feito para as descidas
Dos hydroplanos de meu seculo
Frequentado rendez-vous
De Hollandezes de Condes e de Padres
Que Amaralina actualiza
Poste das saudades transatlanticas
Riscando o ocre photographico
Entre Itapoan e o pharol tropical

A bandeira nacional agita-se sobre o Brasil
A cidade alteia cupulas
Torres coqueiros
Arvores transbordando em mangas rosas
Até os navios ancorados

Forte de São Marcello
Panella de pedra da historia colonial
Cosinhando palmas
E as tuas ruas entreposto do Mundo
E os teus sertanejos asphaltados
E o teu anno de egrejas differentes
Com um grande dia santo
Cathedral da Bahia

Genuflexorio dos primeiros potentados
Confessionario dos inquisidores
Cathedral
E’s o fim do roteiro de Roberio Dias
Romance de Alencar
Encadernado em ouro
Por dentro
Mais grandiosa que São Pedro
Cathedral do Novo Mundo

Passa uma yole
Com remadores brancos
No occaso indigesto
De Itaparica

 
Noite no Rio
 

O Pão de Assucar
E’ Nossa Senhora da Apparecida

Coroada de luzes
Uma mulata passa nas Avenidas
Como uma rainha de palco
Talco
Facil
Arvores sem emprego
Dormem de pé
Ha um milhão de maxixes
Na preguiça
Que vem do fundo da colonia
Do mar
Da belleza de Dona Guanabara
Paixões de feerie
O Minas Geraes pisca para o Cruzeiro

 
Annuncio de Sao Paulo
 

Antes da chegada
Affixam nos offices de bordo
Um convite impresso em inglez
Onde se contam maravilhas de minha cidade
Sometimes called the Chicago of South America

Situada num planalto
2.700 pés acima do mar

E distando 79 kilometros do porto de Santos
Ella é uma gloria da America contemporanea
A sua sanidade è perfeita
O clima brando
E se tornou notavel
Pela belleza fóra do commum
Da sua construcção e da sua flora

A Secretaria da Agricultura fornece dados
Para os negocios que ahi se queiram realizar

 
Contrabando
 

Os alfandegueiros de Santos
Examinaram minhas malas
Minhas roupas
Mas se esqueceram de ver
Que eu trazia no coração
Urna saudade feliz
De Paris.

 
LAUS DEO

Esta obra entrou em domínio público pela lei 9610 de 1998, Título III, Art. 41.


Caso seja uma obra publicada pela primeira vez entre 1931 e 1977 certamente não estará em domínio público nos Estados Unidos da América.