Paulo/IX

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Paulo por Bruno Seabra
Capítulo IX


Paulo saiu do quarto algum tanto abatido.

O artista tinha passa uma dessas noites de atribulações, em que os anelos do espírito se antepõem mil dúvidas e esperanças, mil crenças e impossíveis, em que o coração, ora fatigado, como que baqueia no fundo de um abismo de dificuldades; ora cheio de forças, parece elevar-se acima de todos os impossíveis nas asas da esperança.

Seus olhos encovados, os cabelos em desalinho, e aquele vislumbre de incerteza que sobressaía a palidez da seu semblante, davam-lhe um aspecto de entristecer o coração.

Sua mãe, mal o foi encarando, exclamou sobressaltada e correndo para ele:

— Ai, pobre filho, como estás, que pareces cera! Anda, anda tu, rapariga - continuou, dirigindo-se a Henriqueta -, dize a este rapaz o que eu acabei de contar, enquanto eu vou preparar o almoço antes que lhe dê algum vágado.

Henriqueta contou a seu irmão o que lhe expusera sua mãe.

Paulo, à proporção que sua irmã relatava o que se tinha passado entre sua mãe e o comendador, ia recobrando o ânimo e com ele as cores de suas faces e o brilho de seus olhos. Já seus lábios sorriam, e com as mãos alisava os cabelos desalinhados; enfim, como as árvores cujas folhas caíram miradas pelo sol do verão, e que agora brotam novas folhas ao despertar a primavera, Paulo remoçava o alento do coração, enfraquecido nos debates das dúvidas daquela longa noite, ouvindo a narração de sua irmã.

Henriqueta concluiu bendizendo os amores de seu irmão, e apressando-o que fosse quanto antes à casa do comendador.

Paulo apertou cordialmente as mãos de sua irmã, e transportado da mais doce sensação fitou-lhe os grandes olhos, exclamando com meia voz:

— Como tu és boa, minha irmã! e eu como sou feliz!

— E eu, e eu - perguntou a boa mãe aparecendo naquele momento - o que sou?

Paulo correu aos braços de sua mãe, exclamando:

— Minha mãe! Minha mãe é o que só um beijo do coração pode dizer! - e beijou-lhe a fronte.

— Está bom - tornou a extremosa velha enxugando com o punho os olhos que umedeciam duas dessas lágrimas que são para a alma como o orvalho é para as flores -, está bom - tornou ela - vamos almoçar o nosso bocadinho.

E lá se foram os três, contentes com a fortuna, sentar-se à mesa da pobreza.