Pensar é preciso/VI/A Filosofia: Descartes, Pascal, Hobbes, Spinoza, Kant, Hegel, Vico

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Pensar é preciso por Salvatore D’ Onofrio
A Filosofia: Descartes, Pascal, Hobbes, Spinoza, Kant, Hegel, Vico


A Filosofia: Descartes, Pascal, Hobbes, Spinoza, Kant, Hegel, Vico

A retomada da cultura greco-romana no Renascimento europeu não se deu apenas na literatura e nas artes plásticas, mas também no pensamento filosófico. O mestre Sócrates e seus dois principais discípulos, Platão e Aristóteles, além de Epicuro, estóicos e pré-socráticos, influenciaram os homens que colocaram na razão, e não nos escritos considerados sagrados e nas crenças religiosas, o fulcro do conhecimento da realidade. Eis uma breve apresentação dos principais pensadores que mais contribuíram, ao longo da Renascença e do Iluminismo, para o desenvolvimento do raciocínio humano.


Descartes (1596-1650): Cogito, ergo sum (“Penso, logo existo”)

O estudioso francês René Descartes é conhecido também pelo nome latino Renatus Cartesius, de que resultou o nome italiano Cartesio e o adjetivo qualificativo “cartesiano”, no sentido de uma verdade clara e indiscutível. Além de filósofo, foi também um grande matemático, associando as duas atividades mentais: para ele, o pensamento reflexivo devia ter a mesma clareza e objetividade da ciência exata. Ele operou uma revolução no campo da filosofia semelhante a que seus contemporâneos Copérnico e Galilei estavam realizando no mundo da astronomia (o heliocentrismo): como o centro do universo até então conhecido não era mais a terra, mas o sol, assim o conhecimento da realidade não residiria no mundo exterior, variável e enganador, mas no mundo interior, na mente que o pensa, na razão. Por isso, ele é considerado o pai do moderno Racionalismo.

Descartes seguiu – consciente ou inconscientemente, pouco importa - o método socrático da dúvida sistemática, não acreditando em nada que não pudesse ser demonstrado cientificamente, que não tivesse uma evidência incontestável. A primeira coisa de que não podia duvidar era o fato de pensar: daí o famoso achado “penso (ou duvido), portanto eu existo”. A grande contribuição de Descartes à filosofia foi a valorização do ato de pensar, o estabelecimento da primazia da razão. A única coisa que não é ilusória é o eu pensante. A própria objetividade da ciência não pode existir fora da subjetividade de quem a estuda. O conhecimento parte de dentro para fora. Rompe-se, assim, o automatismo cognitivo fundamentado na tradição cultural, desmonta-se o mundo do autoritarismo: tudo é submetido ao controle da lógica.

Mas, infelizmente, a clareza e a coerência cartesiana não penetram o domínio da ética. Filho de sua época, Descartes sucumbe aos preconceitos da teologia escolástica e da moral burguesa. Ele acaba professando a necessidade de uma ética “provisória”, de tolerância, conformista em relação aos ditames de ordem política, social e religiosa. Quando fica sabendo da condenação de Galilei, Descartes deixa de publicar um trabalho científico em que apresentava idéias inovadoras semelhantes. O medo o torna omisso e hipócrita. Precisamos esperar a vinda do alemão Emanuel Kant para que os valores humanos da sinceridade, da verdade e da justiça fossem considerados “imperativos categóricos”.


Pascal (1623-1662): Destino e livre arbítrio

O africano Santo Agostinho (354-420), o espanhol Luís Molina (1535-1601) e o holandês Otto Jansen (1585-1638) podem ser considerados os predecessores do francês Blaise Pascal no tocante à discussão sobre o controvertido tema da religião católica que trata das relações entre a predestinação e a liberdade humana: se a salvação do homem só é possível pela graça divina e esta, por definição, é um ato gratuito, um presente de Deus, como condenar quem não recebeu este dom?

A questão do livre arbítrio vem de longe, já sendo objeto de perplexidade na mitologia grega: Édipo pode ser visto como o arquétipo do inocente-culpado. O Fado (o destino) determinara que ele matasse o pai e casasse com a mãe, independentemente da sua vontade. Os filósofos estóicos admitiam uma liberdade apenas interior, na possibilidade do “eu” dispor de si mesmo, considerando como princípio de opressão todo o mundo exterior: a natureza, a sociedade, as paixões. Já, conforme a Bíblia, todos os seres humanos, ao nascerem, contraem uma culpa por um pecado que não cometeram. O determinismo psicológico é claramente expresso por São Paulo na sua Epistola aos Romanos:


“faço não o bem que quero, mas o mal que não quero”.


O problema é estudado com uma maior profundidade uns três séculos mais tarde com os Padres da Igreja. Santo Agostinho tenta conciliar a liberdade de escolha do homem com a presciência divina, mas a existência do mal cria dúvidas em seu espírito: se Deus prevê e pode, por que não evita a maldade e a desgraça de que são vítimas não apenas os culpados, mas também tantos inocentes e ignaros? De outro lado, admitir a coexistência de uma dualidade cósmica, o princípio do Bem e do Mal, seria aceitar o Maniqueísmo, doutrina considerada herética. Na verdade, Santo Agostinho dá a entender que a presença da maldade no mundo, face à imensa sabedoria e bondade divina, é algo de inexplicável, beirando o mistério.

Na época do Barroco europeu, a questão se torna uma polêmica, ainda hoje não resolvida plenamente pela igreja católica, entre molinistas e jansenistas. O jesuíta espanhol Luís Molina, como reação às teorias protestantes da predestinação, em 1588, publicou a obra “Acordo do livre-arbítrio com o dom da graça, com a presciência divina, a providência, a predestinação e a condenação”. O bispo holandês Jansênio, partidário do agostinianismo integral, doutrina que dava maior importância à graça divina, em detrimento da liberdade humana, iniciou uma campanha contra os jesuítas que, aceitando o pensamento de Molina, privilegiavam a teoria da salvação pelo mérito pessoal. Sua obra Augustinus foi publicada em1640, dois anos após sua morte, pelos seus discípulos, alcunhados de jansenistas. Blaise Pascal conduziu a controvérsia entre molinistas e jansenistas, escrevendo uma obra a respeito, intitulada As Carta Provinciais (1657), em que ataca o casuísmo dos padres jesuítas.

Pascal, o grande físico, matemático e filósofo francês, se tornou famoso pela obra Pensées (Pensamentos: 1670), entre tantas outras. Ele costumava freqüentar a sociedade mundana, onde esbanjava seu espírito de finura e de elegância verbal, sendo por isso considerado o fundador da prosa literária francesa. Em 1654, escapando da morte num acidente de carruagem, teve um êxtase que o induziu a dedicar sua vida a Deus, tornando-se um homem extremamente religioso. Ao freqüentar a escola jansenista de Port-Royal, Pascal se deixou cada vez mais levar pelo sentimento, acusado, por isso, de reacionário pelos intelectuais do Iluminismo. Conhecido é seu adágio: “o coração tem razões que a própria razão desconhece”, confirmando assim o aspecto misterioso das relações entre o elemento espiritual e material do ser humano, já apontado por Santo Agostinho.


Thomas Hobbes (1588-1679): Homo homini lupus

“O homem é o lobo do homem” (a guerra de todos contra todos): esta famosa frase do filósofo inglês sintetiza seu pensamento sobre as relações entre o indivíduo e a sociedade. O homem, pela sua natureza animal, acossado pela autopreservação, acaba invadindo o espaço do seu semelhante, provocando lutas sangrentas. É necessário, portanto, que os homens se reúnam em sociedade e estabeleçam normas rígidas de convivência pacífica. Para tanto, urge celebrar um “contrato social” pelo qual os indivíduos cedam seus direitos e sua liberdade ao Estado, regido por um Soberano, que ele simboliza no Leviathan (titulo da sua obra mais conhecida), monstro da mitologia fenícia, lembrado pelo profeta bíblico Isaías. A ele, considerado como Deus na terra, deve ser dado todo o poder, pois contratos sem a ameaça da espada são impotentes para garantir a paz e a segurança.

A proposta de um governo absolutista deve ser vista num contesto histórico: Hobbes teve a experiência da Guerra Civil inglesa e dos inúmeros conflitos religiosos que se espalhavam pela Europa toda. Seguindo, de alguma forma, o pensamento político de Maquiavel, imaginou, então, que a solução estaria na separação do Estado da Igreja e na constituição de um Governo único e totalitário que impusesse a paz pela força. O filósofo inglês estava certo quanto à necessidade de um Estado laico, pois todas as religiões são fomentadoras de conflitos éticos, mas errou redondamente ao propor um regime ditatorial. Ele, de uma forma inconseqüente, não calculou que qualquer monarca ou salvador da pátria, por ser ele também um humano, poderia se tornaria um lobo ainda maior, tipo Hitler ou Stalin, conforme demonstrará a história a ele posterior.


Spinoza (1632-1677): Deus é o próprio mundo

Baruch Spinoza, a meu ver, é o pensador mais lúcido e coerente que antecedeu o Século das Luzes. Ele teve a altivez de não se dobrar aos poderosos da sua época, enfrentando o ostracismo da sinagoga de Amsterdã e não aceitando a cátedra da Universidade de Heidelberg, para não renunciar à liberdade de pensar, de sentir e de agir. Judeu descendente dos primeiros israelitas da Espanha, expulsos da península ibérica e refugiados na hospitaleira e liberal Holanda, estudou para ser rabino, mas chegou à conclusão de que as contradições encontradas nas Sagradas Escrituras eram provas da sua origem não divina. Tratava-se apenas de histórias fantasiosas, escritas ao longo de vários séculos e por muitos autores (por exemplo, como ele releva, seria impossível Moisés ter redigido o Pentateuco sozinho). Acreditar em revelações divinas improcedentes e contraditórias se tornou incompatível com os conhecimentos que vinha adquirindo através do estudo da física, da matemática, da lógica, da astronomia e, especialmente da filosofia: Galileu, Giordano Bruno e Descartes passaram a ser seus principais mestres.

Spinoza publicou em vida apenas duas obras, Princípios da filosofia de Descartes (1663) e Tratado teológico-político (1670), mas elas suscitaram ataques tão violentos contra sua pessoa que o levaram a decidir não mais publicar escrito algum. O restante de sua produção teve edições póstumas, com destaque pelo seu tratado mais importante, Ética, onde expõe seu pensamento sobre a divindade e a moral. Para ele, o que chamamos de Deus é simplesmente a própria natureza em que essência e existência são uma coisa só, sem criador nem criatura. É a teoria da pura imanência, não existindo nenhuma divindade ou entidade sobrenatural: nada transcende o mundo da realidade, o espírito não existindo fora da matéria.

Coerente com sua concepção teológica é seu conceito de moral. Se eu estiver interpretando bem a idéia de Spinoza, para ele não existe uma ética religiosa nem individual, pois qualquer forma de moralidade é sempre de cunho social. A própria etimologia da palavra moral vem do acusativo latino mores, que significa “costumes”, normas necessárias para se viver em sociedade de uma forma harmoniosa. Tais normas não fazem parte de um contrato explicito, exarado por um profeta ou um príncipe, mas são naturais, implícitas no próprio conceito de comunidade, que implica em direitos e deveres. Num regime democrático, os cidadãos devem ser educados a respeitar a liberdade de seus semelhantes, independentemente de qualquer postura ideológica ou credo religioso. “Não roubar”, no sentido geral de respeito ao que pertence a outra pessoa (vida, dinheiro, mulheres - ou homens - e outros bens materiais e espirituais), antes de um mandamento divino, é um “imperativo categórico”, conforme a denominação de outro grande filósofo, Emanuel Kant, de quem falarei em seguida.


Emanuel Kant (1724-1804): o imperativo categórico

Diferentemente de outros pensadores que foram também cientistas, teólogos, literatos ou artistas, o alemão Emanuel Kant pode ser considerado um filósofo puro, no sentido de que dedicou sua vida inteira à especulação intelectual. Entre suas numerosas obras, assinalamos: Crítica da razão pura, Crítica da razão prática, Crítica do juízo, A religião nos limites da simples razão, Fundamentos da metafísica dos costumes. Quase todas suas pesquisas foram direcionadas para descobrir os limites entre os sentidos e a razão, tentando responder a três perguntas fundamentais: O que preciso saber? O que devo fazer? O que posso esperar?

Retomando a discussão entre o determinismo e a liberdade humana, que tanto tinha preocupado os estudiosos anteriores, a partir de santo Agostinho, ele considera o conflito apenas aparente, não existindo na realidade. Efetivamente, se, pelo seu ser empírico, o homem deve submeter-se às leis da natureza, pelo poder de sua inteligência ele pode afastar-se dela ou operar sobre ela. A conexão entre o reino da liberdade e o reino da necessidade dá-se dentro de uma realidade unitária, embora pertencendo, dentro de sua unidade, a dois mundos diferentes, o material e o espiritual. Entre as duas realidades há distinção, mas não separação. A alma se distingue do corpo, mas não existe sem ele. Na linha de Descartes, Kant coloca a razão como o princípio fundamental do conhecimento humano, pois é só a partir do sujeito pensante que se constrói o mundo exterior. O saber vem de dentro para fora e não ao contrário, como pensam os cientistas. E, para superar o subjetivismo e o relativismo, passa a admitir o caráter absoluto de certas formas de raciocínio.

Mas é no domínio da ética que o pensamento de Kant tem seus melhores resultados práticos. Ele postula a existência de uma alma livre, que possui uma vontade autônima. Só que a vontade individual deve ser submetida a uma lei natural proveniente de uma necessidade lógica: existe algo “apodítico”, no sentido de incontestável, válido para todos os homens, em qualquer tempo e em qualquer lugar, não dependendo de religião alguma, pois faz parte do próprio viver em sociedade, que Kant chama de “imperativo categórico”: agir conforme uma máxima tal que você possa querer que se torne lei universal. Tal princípio ético fundamental pode ser assim formulado: ”trate seu semelhante como você gostaria de ser tratado”! Este conceito de Kant está de acordo com a essência da "regra de ouro", exposta de maneira semelhante pelos maiores profetas e filósofos da história da humanidade:


"Este é o resumo de todos os deveres: não façais nada aos outros que, se fosse feito a vós, vos causasse mágoa" (Mahabharata);
"Não magoeis os outros com aquilo que vos magoa a vós" (Buda);
"Deus diz: amarás o teu próximo como a ti mesmo" (Levítico);
"Tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós" (Evangelho segundo Mateus);
"Se queres ser amado, ama" (Sêneca);
"Nenhum de vós é um crente, até quererdes para o vosso vizinho aquilo que quereis para vós" (Maomé).


Se os homens detentores do poder político ou religioso observassem esse mandamento, aí sim poderíamos construir uma verdadeira cidadania!

Hegel (1770-1831) e Vico (1668-1744): o idealismo dialético

Friedrich Hegel retoma o pensamento de seu patrício Kant no projeto de pensar a vida pela oposição entre o mundo subjetivo e objetivo. Só que ele acrescenta um passo fundamental: encontra a “síntese” que engloba a tese do eu pensante com a antítese do mundo exterior. Formula, então, o processo que ele chama de “dialético”, constituído pelos três momentos: tese (proposta), antítese (oposição) e síntese (conjunção), que lembra as três proposições do silogismo dos filósofos pré-socráticos e da escolástica medieval (premissa maior e menor, seguidas da conclusão). Hegel chama tal processo de dialético, do grego dia + lexis = “a palavra em movimento”, pois ele identifica o Absoluto com o Conceito. Para o filósofo alemão todo o conhecimento só é possível dentro da mente humana: a essência das coisas está na “idéia” que temos delas. Ele conecta, assim, seu pensamento ao idealismo do filósofo grego Platão.

O princípio dialético do procedimento por oposição e englobamento das oposições, exposto na sua obra máxima A fenomenologia do espírito (1807), pode ser aplicado não apenas à teoria do conhecimento, mas também ao estudo da história e do avanço das várias civilizações. O que fizera, de uma forma bem mais clara do que a complicada dialética alemã, o napolitano Giambattista Vico, quase um século antes de Hegel, ao publicar a obra Princípios de uma nova ciência relativa à natureza comum das nações (1725), considerada o primeiro tratado de Filosofia da História. Nela, contestando o racionalismo de Descartes, defendeu a tese de que o verdadeiro objeto do conhecimento não é a natureza, nem a razão, mas o mundo da cultura: o que o homem realmente cria e deixa para a posterioridade.

Vico é o primeiro a utilizar o método triádico, chamado de “cursos e recursos históricos”. Para ele, a civilização passa por três estágios: idade divina (mítica, teológica ou infantil), idade épica (heróica ou juvenil) e humana (racional ou madura). Após o terceiro estágio, termina um ciclo e reinicia uma nova etapa. Esta teoria explicaria, por exemplo, a volta à barbárie do Egito atual, após tantos séculos de civilização faraônica. Os Impérios, como todos os seres vivos, nascem, crescem e morrem. Algo semelhante aconteceu na religião judaico-cristã: o Deus de Abrão era um tirano que exigia submissão incondicional a leis intoleráveis; Jesus veio para libertar os seres humanos dessa escravidão, mas as igrejas de papas, pastores, rabinos e aiatolás voltaram a exercer a antiga tirania.