Pensar é preciso/XII/A raiz do mal: herança de ignorância, servidão, corrupção, nepotismo, impunidade

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Pensar é preciso por Salvatore D’ Onofrio
A raiz do mal: herança de ignorância, servidão, corrupção, nepotismo, impunidade


A raiz do mal: herança de ignorância, servidão, corrupção, nepotismo, impunidade.

Após meio milênio de história, o Brasil continua com os mesmos vícios originais de uma sociedade paternalista, assentada sobre a concentração de renda que provoca uma profunda desigualdade social. A corrupção é institucionalizada e, por ser geral, é considerada normal, gozando da impunidade. O povo se acostumou a conviver com a injustiça social, contentando-se com o assistencialismo. Todas as tentativas de mudar tal situação, visando a adoção de um regime verdadeiramente democrático, foram abortadas pelos governantes de plantão. Monarcas ou Presidentes, militares ou civis, uma vez alcançado o poder, mordidos pela mosca azul, deixam de lado os ideais de reforma da estrutura social e tomam medidas imediatistas para defender sua permanência na governança pelo abastecimento de seus currais eleitorais. Ainda hoje podemos perceber a divisão do nosso país em vastas regiões dominadas por famílias de políticos poderosos, de forma semelhante ao que acontecia com a instituição das Capitanias Hereditárias na época do Brasil Colônia.

Continua a ser alimentada a forma mais perniciosa de ditadura, sustentada não mais pelas armas, mas pela compra do voto popular: quem tiver mais dinheiro e influência política acaba sempre se elegendo e reelegendo, ficando tudo como estava antes. Lembramos a famosa frase do Príncipe de Salina, o protagonista do romance O Leopardo, de Tomasi di Lampedusa, ironizando as reformas propostas pelos conquistadores da Sicília, na época do herói nacionalista Giuseppe Garibaldi:

Mudem tudo, mas apenas o suficiente para manter tudo
exatamente como está!

O antigo coronelismo foi substituído pelos modernos programas sociais, utilizando acintosamente a máquina estatal. E a servidão continua, colocando-se sempre a caridade em lugar da justiça. O problema político brasileiro é muito profundo e de difícil solução, porque não é contingencial, mas de estrutura mental, de cultura. Não adianta dar ao povo o direito de voto, se o político simplesmente compra seu voto em troca de um favor qualquer. É muito perigoso dar uma arma na mão de uma criança, se ela não souber utilizá-la. Pela ignorância do manuseio ela poderá apontá-la contra si próprio. Para um regime democrático realmente funcionar é preciso que a grande massa saiba ler e entenda o que está escrito, analisando a realidade à luz da verdade histórica e factual, sem tornar-se vítima de promessas dos demagogos de plantão. Onde foram parar os ideais da “Direta-Já” e da fundação do PT, o partido dos trabalhadores? Que adiantou termos conquistado a liberdade do voto popular, se a Nação continua imersa na costumeira cova da corrupção e da impunidade?

Não nos façamos ilusões: nenhum país vai realmente para frente sem debelar o monstro da corrupção. Ela atua como um câncer que corrói o tecido social, aos poucos destruindo as células vivas da Nação. Tirar o dinheiro de quem trabalha para sustentar vagabundos ou irresponsáveis não nos faz vislumbrar um futuro promissor para nossos filhos e netos. É preciso entender, de uma vez por todas, que o que faz a riqueza verdadeira e duradoura de um povo não é nenhum projeto macro-econômico, avanço tecnológico ou especulação financeira, mas o trabalho do cidadão. A riqueza do Estado é formada pelos impostos que ele cobra da classe produtora e dos assalariados. Ora, a finalidade primordial do dinheiro arrecadado pelo poder público é providenciar educação, saúde e transporte eficiente para a população.

Mas acontece que em nosso país, como em outros onde a massa popular não tem um desenvolvimento mental estimulado, esta finalidade não é atingida, pois os políticos se apossam do erário público para satisfazer seus egoísmos individuais ou de grupos. Daí o gasto do dinheiro de nossos impostos com o nepotismo e o empreguismo, preterindo funcionários eficientes em prol de incompetentes cujo mérito é apenas pertencerem ao esquema da corrupção; o desperdício com obras públicas suntuosas, inúmeras mordomias, viagens desnecessárias, licitações fraudulentas e obras superfaturadas; a injustiça na remuneração pelo trabalho, diferenciando funcionários federais, estaduais e municipais e permitindo um fosso enorme entre o salário mínimo e o teto altíssimo e não respeitado por quem tem o poder de aumentar o estipêndio em causa própria. Infelizmente, o egoísmo é conatural ao homem e a corrupção sempre existiu e vai continuar em qualquer tempo ou lugar. Mas aqui não nos estamos referindo à corrupção cultural ou pontual (dar uma gorjeta a um policial ou favorecer um parente), mas, principalmente, à corrupção organizada e oculta (grandes empresários que sorrateiramente compram o apoio de governantes). O que se lamenta é a conivência do sistema político que permite o desaparecimento dos mecanismos de defesa do organismo democrático. A corrupção não é mais considerada como um crime de lesa-pátria, que deva ser rigorosamente punido pela força da lei. Ela se tornou uma prática normal dos Três Poderes da República, gozando da impunidade, apoiada inclusive pela maioria do povo, que continua dando seu voto a políticos indiciados ou até já condenados em primeira instância por improbidade administrativa.

O que causa estranhamento é a condescendência do povo brasileiro com os criminosos de colarinho branco. A multidão se revolta contra atos nefandos de estupradores, pedófilos, infanticidas, ameaçando seu linchamento, mas não demonstra a mesma ira contra empresários desonestos, políticos corruptos, religiosos picaretas. Não se reflete sobre o fato de que a ação destes últimos facínoras é muito mais perniciosa para a sociedade do que o ato isolado de doentes mentais. Um monstro pode destruir algumas vidas, enquanto o delinqüente de gravata é a causa da desgraça de milhares de seres humanos. É incalculável o numero de crianças que poderiam ter sido salvas do caminho do crime com o dinheiro público surrupiado por gente desonesta. É preciso que o poder do Estado pense nisso, pois, como dizia o sábio chinês Confúcio:

Não são as más ervas que sufocam o grão,
é a negligencia do cultivador!

A corrupção tem um alto custo econômico, social e humano, atingindo especialmente a classe mais pobre, que se vê privada dos recursos públicos desviados pela sanha dos poderosos, não tendo meios de defesa contra escolas deficientes e sistema de saúde precário. Maior ainda é o dano moral: ela corrói o elo da sociedade e degrada as instituições públicas. Como convencer nossos filhos de que o respeito ao que é do outro, a honestidade, constitui o fundamento da vida em sociedade, quando eles assistem diariamente ao assalto ao erário público pelos representantes do povo? Como condenar ladrões se o exemplo da ladroagem impune vem de cima? O peixe fede a partir da cabeça! É preciso salientar ainda a culpabilidade da classe política pelos crimes hediondos que vêm acontecendo. Assaltos, seqüestros, assassinatos, estupros, tráfico de drogas, bêbedos no volante e outros males sociais têm suas origens na infância abandonada pela família e não assistida pelo poder público.