Perdoaime, meus amores

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Rejeita sua esposa o ramilhete de flores, e o poeta prossegue no mesmo galanteyo tornando-a a mandar com este.
por Gregório de Matos
Poema agrupado posteriormente e publicado em Crônica do Viver Baiano SeiscentistaOs Homens BonsMaria
Mote

Perdoaime, meus amores,
do ramilhete a figuinha,
que onde estais vós, vida minha,

uma figa para as flores.


1Como assim, Clóri divina,
ramilhete rejeitais?
mas é porque imaginais
ser dele a melhor bonina:
Vede bem, que Amor ensina,
a que vos mande essas flores;
não me negueis os favores,
quando desejo acertar;
e se eu erro em vos amar,
Perdoai-me, meus amores.

2Eu, Clóri, tanto que vi,
que o não estimáveis muito,
de que não fizera fruito
pela flor o conheci:
logo me compadeci
da figa por vida minha,
porquanto já certo tinha,
que nesse sol a estalar
era força o acabar
Do ramilhete a figuinha.

3Dai-me licença, que diga,
que, a quem dá flores a molhos,
meteis a figa nos olhos
em não aceitar a figa:
porém antes que prossiga,
no que a afeição me encaminha,
digo, se dito não tinha,
sem que seja fora d'arte,
que flor não vi em melhor parte,
Que onde estais vós, vida minha.

4Minha Clóri, e meu amor,
esse ramilhete enfim
peço aceiteis, porque assim
lhe ficais levando a flor:
e então vendo-se, Senhor
à vista de tais favores
em mãos tão superiores,
é certo, vendo-lhe a figa,
que não faltará, quem diga,
Uma figa para as flores.