Poesias (Zaluar)/Prologo
Estou certo que cousa nenhuma poderá desculpar-me a temeridade de publicar este livro de versos. — Eis-aqui o motivo por que julgo inutil escrever um prologo. — Contar a historia dos acontecimentos intimos que os inspiraram? — Se elles não tiverem arte de o revelar; serão inuteis todas as minhas palavras agora. — Um momento de tristeza passado á beira de um lago nas boras de melancolia; — uma folha secca fluctuante nas agoas de um ribeiro; — uma phantasia de amor; — um desejo muitas vezes louco; — e tantos mysterios do coração, que eu tenho sabido sentir; mas que por ventura não tenho tido o condão de revelar; — são os acontecimentos que os inspiraram: — são a chronica de todos elles. Estou certo, torno a repetir, que nada me poderá desculpar este arrojo temerario, que commetto, — talvez o arrependimento siga de bem perto este livro; — mas um testemunho, que preciso dar á amizade dos meus amigos, a que vão dedicados, — e o desempenho de uma palavra, que dei, — são os motivos, que me animam unicamente a publical-os.
Lisboa 16 de Junho de 1846.